terça-feira, 15 de maio de 2007

VÔO PELO CRIAR

Romper
limites estabelecidos:
ascender
pelo poder de fogo.

Tocar
com as pontas das asas
a serenidade sinuosa
das águas.

(Fabio Rocha)

A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desen­volve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do in­divíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação. Tomei o processo natural de individuação como modelo e diretriz para o meu método de tratamento. A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência. É extremamente raro que um sonho atinja uma intensidade tal, que seu impacto derrote a consciência. Geral­mente, os sonhos são fracos e incompreensíveis demais para exercerem uma influência radical sobre a consciência. Logo, a compensação passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, produz efeito, mas um efeito indireto: a oposi­ção inconsciente, numa constante infração, vai arranjando sin­tomas e situações, que finalmente se contrapõem sem cessar às intenções conscientes. No tratamento esforçamo-nos, por con­seguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma oposição inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, para utilizar, na medida do possível, o fator curativo da compensação.
Esse processo parte naturalmente do pressuposto de que o homem é capaz de atingir sua totalidade, isto é, de que pode curar-se. Menciono esse pressuposto porque existem indivíduos que, indubitavelmente, no fundo, não são inteiramente aptos para viver e se aniquilam rapidamente, quando porventura se chocam com sua totalidade. Mas, quando isso não ocorre, sua vida transcorre até idade avançada, fragmentariamente, a modo de personalidades parciais, auxiliados pelo parasitismo social ou psíquico. Para a infelicidade dos seus semelhantes, tais indivíduos não passam freqüentemente de grandes impostores, que encobrem o seu vazio mortal com uma bela apa­rência. Querer tratá-los pelo método aqui descrito seria, desde o início, uma tentativa vã. O que "ajuda" nesses casos é man­ter as aparências; pois a verdade seria insuportável ou inútil.

JUNG, "A Psicologia do inconsciente", vol. VII/1, § 186-7.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Romper"... "Ver"... "Tocar"... "Sentir"... todos verbos fabulosos na sua simplicidade e poderosos em simultâneo!

Adorei o poema no seu todo, magnífico!

Parabéns :))