sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Cuidado com o amor romântico

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(Estava me sentindo um pouco agoniado de publicar só poemas de amor aqui no dia dos namorados, talvez reforçando o padrão de idealização do romantismo que faz tanta gente sofrer com esse dia. Ainda mais agora que passamos de 25.000 cadastrados para receber as atualizações da Magia da Poesia por e-mail. Não tem nada a ver com poesia, é prosa, mas espero que possa ser de alguma ajuda para os tantos que sofrem nesta data e com o amor romântico em geral.) 

Já parou pra perceber o quanto é sua mente que cria as experiências? Da mesma forma que você olha um tijolo e nem percebe que esse conceito - tijolo - surge no automático. Sem notar que ele é feito de barro, a mesma matéria que compõe um vaso, por exemplo. Sem nem se perguntar o que faz daquele barro um tijolo. Instantaneamente - a gente olha o vaso e vê vaso, olha o tijolo e vê tijolo. Não notamos que nós é que construímos na mente os objetos instantaneamente através de nossos hábitos.

Agora use essa forma de perceber para aquela dorzinha no peito que aparece no dia dos namorados, principalmente para os que estão solteiros. Não fuja, não se distraia. Encare. Por que as relações passadas parecem derrotas por terem acabado? Vamos olhar mais vagarosamente isso, saindo do instantâneo. Não seria o mundo uma dança de inícios e fins, em tudo? Então por que isso dói? Por causa da porcaria do mito do amor romântico eterno, sendo que - na prática - tudo acaba. E sabendo disso, podemos aproveitar a relação muito mais, enquanto durar. Mas, como somos programados desde cedo a entrar no padrão de relacionamento "felizes para sempre", associamos cada término a uma derrota pessoal. E aí dói.

dia-dos-namorados

Ao mesmo tempo, podemos notar que, associada a essa dor, há um apego ao ser que "perdemos". Novamente de forma automática podemos nos bombardear com pensamentos negativos do tipo cultuado em músicas românticas: "será que você ainda pensa em mim", "se um outro cabeludo aparecer em sua vida", "a falta que você me faz", "é impossível ser feliz sozinho", "eu quero só você",  e trocentas mil formas de mimimis doloridos. Somos criados para ter esse apego e há uma vasta produção cultural (filmes, músicas, livros...) que reforça e cultua isso ao longo de toda a nossa vida. Sem falar nas propagandas na TV perto do dia dos namorados. Esse vídeo do Porta dos Fundos é bem esclarecedor sobre o fenômeno que criamos e no qual acreditamos constantemente - o amor romântico, a alma gêmea, o meteoro da paixão etc.

Para completar, tem os amigos namorando que parecem tão felizes no facebook, expondo seus presentes e sorrisos, aparentemente alheios aos problemas filosóficos do consumismo e do amor romântico. Porém, isso é facebook... Não há festa.
"A ideia de amor apaixonado, romântico, que emergiu no Ocidente durante o último milênio é uma de nossas heranças culturais mais destrutivas.

Isso porque sua principal aspiração - a descoberta de uma alma gêmea - é praticamente inatingível. Podemos passar anos à procura dessa pessoa elusiva que satisfará todas as nossas necessidades emocionais e nossos desejos sexuais, que nos proporcionará amizade e autoconfiança, conforto e risos, estimulará nossas mentes e compartilhará nossos sonhos. Imaginamos que existe alguém no éter amoroso que é nossa outra metade perdida, e que nos fará sentir completos, bastando apenas que possamos fundir nosso ser com o dele na sublime união do amor romântico.

Nossas esperanças são alimentadas por uma indústria de filmes românticos de Hollywood e um excesso de ficção barata difundindo essa mitologia."

—Roman Krznaric

Se percebermos como são vazias essas construções que nós mesmo fazemos e que doem, podemos sentir de outra forma. Podemos ver a beleza do que trocamos com as pessoas enquanto durou. Podemos desejar que - como seres que buscam a felicidade - as ex e os ex sejam felizes. Podemos ser agradecidos pelo tempo bom que passamos juntos. Podemos nos alegrar ao perceber que tudo continua, que seguimos e que a felicidade verdadeira não depende de outra pessoa da forma como o romantismo ensina. Basta parar um pouco e apurar o olhar.

Resumindo, podemos tentar nos lembrar disso sempre (já sabemos disso racionalmente), sobre relacionamentos:

1 - Não vai durar pra sempre (nós, no mínimo, morremos!) - aproveite cada segundo;

2 - A felicidade não vem do outro (é possível ser feliz sozinho sim!);

3 - Quanto mais nos agarramos, quanto mais paixão, mais sofrimento. Quanto menos possessividade e autocentramento, melhor. Em resumo, "Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para ficar e motivos para voltar." (Dalai Lama)

OBS.: Isso também vale pra ex-amigos, toda forma de relação. Não é algo só com você. Tudo flui: não há derrota em términos e afastamentos. Não é preciso sentir de uma forma dolorosa, se você conseguir olhar com mais sabedoria. (Isso não significa que você deva aceitar tudo das pessoas nem mentir para si mesmo que não há dor num caso mais horroroso de relação. Se alguém te fez algo péssimo e você não consegue ver de outra forma, encare como um motivo para se alegrar pelo afastamento - tendo compaixão consigo mesmo. Inclusive, se for o caso de relação abusiva, denuncie pras autoridades, você estará prestando um serviço para a sociedade, pra você mesmo e para a própria pessoa.)

OBS.2: Veja também esse vídeo genial sobre amor romântico e amor genuíno, que passou de 2 milhões de visualizações aqui no youtube.



É de Jetsunma Tenzin Palmo, que passou 12 anos meditando de forma isolada em uma caverna. Eu acho tão importante que gosto de revê-lo de tempos em tempos. Liguem as legendas em Português abaixo, à direita. (Aqui deixei um resumo de palestra de Gustavo Gitti e outras visões sobre o tema no Budismo). Outro vídeo indicado é do Thich Nhat Hanh, aqui. Outro. E adoro esta metáfora poética:

1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.

Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)

OBS. 3: Amor livre ou poliamor não me parece ser a solução para este problema, pela minha própria experiência com ele. Porque acaba sendo outro pacto pensando primeiro em você mesmo, de forma autocentrada, apenas outra forma de controle sobre o outro. Ou uma liberdade compulsória imposta ao outro baseada em egoísmo. Ou uma forma de amenizar o medo da perda, mas sem efetivamente acabar com a chance da perda.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

doença

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as cidades são o câncer do mundo
semeando cinza
alteram o metabolismo do tempo
aceleram a pulsação por rodovias engarrafadas
tudo e todos correndo correndo correndo atrás de nada
até que explode
uma bomba, um louco, um poema

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

concurso literário tororó das couves

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este certame visa a expansão da consciência
da importância
e da impotência
das couves

o ineditismo literário
é temerário
arbitrário
mas imprescindível

podem inscrever-se escritores ambidestros
de ambos os sexos
que desenhem com as duas mãos nas quintas-feiras
e leiam e releiam este regulamente oito vezes
pagando a taxa irrisória de um milhão de reais
para cobrir os custos de digitação do abecedário glorioso
e dos troféus e medalhas de honra ao soldado desconhecido
que serão entregues aos egos competitivos vencedores
em cerimônia solene e iluminada
no salão nobre da casa da mãe Joana
na rua das couves, 666
em data a ser definida num dia indefinido
quando do festival das couves

a banca julgadora será constituída por ilustre marceneiro anônimo
composta de mogno
firme e sólida
sobre a qual serão performados sacrifícios ritualísticos de couves
para alimentar as massas

(os competidores que morem na cidade das couves estão, desde já, agraciados com o prêmio maior: a couve sagrada)

para inscrever-se, o autor deve ser inédito e insone
não ter livro publicado, namorada, filho ou árvore plantada
gostar de quiabo e couve
e nunca jamais pode ter dançado com o demônio sob luz do luar

o tema obrigatório são as couves
suas cores
seus sabores
seus movimentos ao vento…

os trabalhos devem ser enviados num envelope menor lacrado de papel pardo com codinome secreto
dentro de outro envelope menor lacrado de papel pardo com outro codinome secreto
dentro de outro envelope menor lacrado de papel pardo com outro codinome secreto que não se refira a couves
dentro de uma caixa enorme enviada via carta registrada com carimbo da Dinamarca e sem quaisquer identificações
acompanhando um cd e um pendrive e um iPad com o texto digitado com codinome secreto
(o nome verdadeiro do codinome deve ser enviado por telégrafo ou sinal de fumaça)

é imprescindível o uso de letras corpo violão 12, folha A3 dobrada 12 vezes, espaço 1,575 (estrelinhas) e fonte Times ou Arial ou couves

os vencedores receberão o título de vencedores
os perdedores receberão a missão de invejar os vencedores
que terão seus textos em prosa ou poesia publicados
(num livro inédito que venderá a amigos contrariados)
com o propósito de não poder mais participar de concursos literários como esse
que exigem o ineditismo

o prazo limite para o envio das caixas com envelopes e equipamentos é o de ontem
(se não chover e estragar a horta)

os casos omissos no presente regulamento ficarão omissos
enterrados no fundo da terra
(como a raiz das couves)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

rosa

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o amor nunca é como você esperava
o amor espera
o amor atrasa
mas está lá…

você foi treinado
desde a mais tenra infância
a matar o amor:

já jogou granada
deu tiro de UZI
AR-15
hadouken
metralhada
CONTROL ALT DEL
mas o amor rebootava

o amor insiste
inesperado, único
e não há como se proteger
de sua rosa

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

manhã de vento

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a tecnologia que leva ao céu
afasta do eu:

sob a terra
aterrador inconsciente
maior que a Terra

(ainda distante)

aterramos vontades
verdades
sólidas influências...

voamos e-números
túmulos de nós mesmos
seguimos sem nós
nem liberdades

sem saltos
ou sobressaltos
batemos ponto
entre o céu e a terra

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

minha vida é insônia e um ônibus engarrafado

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uso óculos escuros
na noite alta

estrelas

pianos

mortos me assustam vivos

respiração descompassada
entre os passos do passado
e os furos do futuro

toco a realidade
através de um véu amarelo
de racionalidade:

não sinto nada
além de falta

(Fabio Rocha)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

ar

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O vento é largo
no céu sem prédios.

Procuramos remédios
pra doenças que nem há.

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

da falta de paixão

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nenhuma aventura a contar
e alimentar de risos quentes
meus dias de ar…

no silêncio e só comigo
persigo o ato consciente
de não perseguir nada.

dure o corte de uma espada
um domingo
ou uma vida meditada…

sou apenas
a palavra que apela:
um poema, pelamordedeus
uma estrada…

(Fabio Rocha)