terça-feira, 21 de setembro de 2010

VISÃO

uma mulher macia
abraçada a um violoncelo
chorando som

(Fabio Rocha)

RE_PROVA

meu objetivo comprovado
é provar que consigo
nada provar

(Fabio Rocha)

OLHANDO O ABISMO

não tem fundo
meu
posso

(Fabio Rocha)

VOLTANDO AO MONSTRO DE AÇO

hoje vesti o sorriso pra fora
engomei o sapatos com passos
reiventei as grades como enfeites de metal
subi na mesa mais terrível do quintal
e colhi diamantes de ouro
numa vitória só minha

(Fabio Rocha)

HORA DO LANCHE

epifania é a palavra mais lisa

em seu encalço comi um hambúrguer
bebi suco de abacaxi feito na hora
(uma piscina verde nas mãos, espumante)
e a danada
nada

(Fabio Rocha)

ESTADO ALTERADO DA CIÊNCIA (FALTA)

do céu bucal ao chão gelado:
centelha de dente líquido passado
salivo pelo estado da guanabara não-vermelha
onde a sua boca se esconde

(a sua boca que não me salva, eu sei)

mas onde
onde a sua boca se esconde?

(Fabio Rocha)

VENDO

a fratura se expõe no vazio

a cidade cinza alheia
liga as grades com leis
em celas de telas

protegidos de quebras
patrões e padrões
vendem paredes

não tem ninguém vendo isso, porém

(Fabio Rocha)

TEMPLOS MODERNOS

parei de seguir o Dalai Lama no twitter

(ainda bem que no budismo não há inferno)

(Fabio Rocha)

INCISIVO

a maior invenção humana é o sorriso

(Fabio Rocha)

domingo, 19 de setembro de 2010

ASSIM

preparo um poema
no silêncio da tarde de um dia frio
preparo um poema em estado de agora
sem quaisquer tranquilizantes, vocabulários ou dançarinas seminuas
(onde foram parar as dançarinas seminuas de domingo na tv?)
preparo um poema bem provisório
para ir sem pressa
com três xícaras de açúcar bem cheias
usando gorro e meias
depois de ver um filme e crer numa promessa de futuro romântico novamente
e achar que o Sílvio Santos não devia mais estar no palco
preparo o poema expurgador da falta
fatia de amar sem faca possível
manteiga pra digerir a vida
é quando a ausência assimilada começa também
a me pertencer
descansada
assim, do nada

(Fabio Rocha)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

TODO DIA, O DIA TODO


eu domo a poesia é na marra
e me solto em seu fluir
(longos cabelos de mulher)
eu faço poesia é na farra
e não há nada mais sério por vir

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ESTRANHAMENTO

as entranhas do sentir são frágeis:
um momento de pensar
um segundo de atraso
e tudo se estranha

(Fabio Rocha)

SINCERICÍDIO


meu passo é um desisto
nada se encaixa em nada disto
mas relaxo e cruzo o fixo
entre o menino e o menisco

(Fabio Rocha)

ATRÁS


tantas máscaras de rir
de dar bom dia
do dia-a-dia

na frente de máscaras de querer secreto
de planejar futuros
de estar orgulhosamente ocupado
de ter o carro do ano
ou uma esposa só sua
de filosofar com razão
ou crer em Deus padrão
ou na ciência
ou não

e no fundo de todas as máscaras
no auge da percepção
não há um rosto
mas o vazio
o mesmo vazio
que preenche o universo
e faz as flores se abrirem durante a noite

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A GATA QUE SORRI


no meu país das maravilhas
a gata de óculos
fala manso
anda alto
salta macia

(Fabio Rocha)