sábado, 13 de novembro de 2010

ENCONTRO

Vários dias antes eu já adivinho o encontro. Horas antes eu já sou todo ele...

Já deixei o velho para trás, rindo dos mesmos encontros previsíveis semanais ou diários aos quais eu, compromissado e velho, quase me lamentava mas ia, morno quase frio... Hábito seguro de onde o prazer se esvai como areia das mãos, visando futuros previsíveis e repetitivos de contos de infância que nem assim se realizam, nem com todo esse esforço... Meu caro leitor, se, quando a "sua" digníssima te ligar, você não sentir a mais sincera celebração íntima, algo como uma dança ou um nascimento de estrelas, está adiando algo que já acabou. Pode ter certeza. Se houver uma ponta de decepção - mesmo que quase imperceptível - naqueles segundos em que o telefone toca e você vê que é ela, acabou.

Ah, mas hoje estou no hoje. E o hoje é novo. Sou novo. Tudo é o encontro e a preparação pro encontro. A manhã estética, a tarde insone, a meditação impossível, a paz maluca do sábado preenchido... Um perfume de mulher nas narinas e infinitos futuros possíveis brincando de existir... Tudo natural, tudo sem forçar nada a ninguém nem se forçar a nada...

Nunca houve um encontro como esse. Nunca haverá outro. A vida, a cada instante, se mostra deliciosamente nova. Vou puro e sedento, com minha melhor roupa, meu melhor relógio, meu melhor perfume, minha melhor esperança, meu melhor eu. Vou sem nada afiado nas mãos e de peito aberto. Tenho doze anos.

(Fabio Rocha)

VERDES

fecho suave as pálpebras
pros sinais fechados

(respiro sagrados
reaprendo ternuras
antecipo segredos)

abro a vida sutilmente
pros teus olhos

(Fabio Rocha)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ARPEJO


o sono plange
minha palavra pura
não sei nada além do sono
(banjos dos anjos sonados)
o sono boceja a céu aberto
indicando mais sono
na previsão do tempo pouco pra dormir
dada pelo apresentador com sono
que, com sono, imagino
numa TV de sonho

(Fabio Rocha)

PORQUE HOJE VOU TE VER


soltei meus cavalos
pelo céu multicor da sexta-feira

e cavalgaram o silêncio
que precede o salto

(nenhum deles tem a menor idéia
mas todos vão com certeza...)

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CLARK KENT ou ALÉM DO HOMEM

eu amo como um super-herói voa
num rompante
pro alto e avante!
pra ontem!
possante!

eu amo como um super-herói morre

(Fabio Rocha)

ELA VIRÁ

a vida me nina
na sua vinda
a vida, menina

(Fabio Rocha)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

ARRUMAR O JARDIM


o que vier a mim
veio
o que não vier
não veio
e morrerei no fim
velho
na paz de mim

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

HORÁRIO COMERCIAL E REPOUSO REMUNERADO

escrevendo tendo ao infinito

das 8 às 17 horas
sempre sobra tempo

mas depois das 5
me anulo em 1/4

(Fabio Rocha)

PELE CLARA


uma das coisas que aprendi:
não
aprender

(Fabio Rocha)

domingo, 7 de novembro de 2010

MARULHO

O mar me olha
O mar molha
O mar molda (eu mudo)
O mar fala que não há onda derradeira
O mar enorme (maravilha)
Morde e mastiga meus problemas pequenos

O mar morno amolece as pernas maravilhosas das mulheres magras

O mar: a mar ca
Amar: a bar ca

Todos os postes enferrujados
Os postes iguais, enfileirados
Parados
Profundamente enraizados em certezas
Ruirão

Caminho moendo memórias
Molares bipolares
Alfazema nos ouvidos antigos
Milhares de marcas no peito marítimo
E a maluca certeza de mais suor, sal e sorriso

O que não mata fundo
Fortalece
O meu amar
Este mundo:
Melhorar
O poema.

(Fabio Rocha)

VERMELHO AINDA

como pode
nesse peito tão pisoteado
brotarem instantaneamente
tantas flores erradas
tão erradas sempre?

(Fabio Rocha)

sábado, 6 de novembro de 2010

CREPÚSCULO


ela era estrela
ele era sol

se tocavam brevemente
quando os pássaros iam dormir
ou acordavam

(Fabio Rocha)

OBS: O desenho e o convite pra poesia é de Luiza Maciel Nogueira.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PARA LER QUANDO ACHAR QUE ENTENDI ALGO


há casados mais carentes que ermitões
eremitas hereditários em multidões
todos, sem distinções, perdidos
dolorosas solidões aquosas
sem aparentes soluções

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

VERMELHO

a cada nova rosa
que brota em minha vida
crio clareiras no jardim
expurgo o passado de espinhos
arranco possíveis futuros daninhos
sou o sol
chamo a chuva
e todo o universo
que corre por minhas veias
acelerado e vermelho
corre por ela:
a rosa é única
e a rosa é tudo

(Fabio Rocha)

"Descobre onde dorme esquecido, no recôndito da tua mente, do teu coracao, do teu eu mais íntimo, o teu Pequeno Príncipe... E o desperta! Dali pra frente, em um instante, muito do que te parecia importante de repente perderá o valor. O que antes era urgente demais já não tera mais tanta pressa. E o que te deixava infeliz já não poderá mais agir sobre ti." (Exupery)

VA_NESSA

a vida leva voraz
mas traz

vanessa me pediu uma promessa
tão bonita
que prometi

(e voltei aos sete anos de idade
desenhando corações com bic vermelha)

(Fabio Rocha)