sexta-feira, 18 de junho de 2004

e-book Alquimia (2004) - revisado em 2014






Alquimia

Fabio Rocha




Copyright © 2004 por Fabio Rocha - revisado em 2014



Registro EDA – Biblioteca Nacional:

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: ALQUIMIA
No. Registro da Obra: 323082
Livro: 591
Folha: 242
Data de Registro: 18/6/2004
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não




Título original: Alquimia




Editoração eletrônica: Fabio Rocha




Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br







PREFÁCIO

Percebo em Fabio Rocha um “quê de alquimista”. Aparentemente, o poeta não mistura

“(...) o limo da árvore
ao lume acima das nuvens
pois chove (...)”

como cita seu próprio poema. Mas vejo aquele que mistura palavras, transforma em versos e assim faz surgir poesias de muitos porquês.

Seus trabalhos trazem muitas vezes o cotidiano e a realidade de forma crua e espantosamente poética, que nos levam a um mundo à parte. Fato contraditório, mas para Fabio Rocha, possível.

Diz em Alquimia que devemos nos apaixonar pelo mundo. Mas várias vezes expressa a idéia e a vontade de amar-se internamente, seguir o próprio caminho, ser Deus, ser o presente, enfim, estar consigo e em si. Apesar deste sentimento, admite que não se basta e por isso se apaixona e ama e escreve. É realista e consegue achar o encanto dos sentimentos e sentidos, expressando-se sem deixar sua escrita melodramática. Ah! E Deus lhe livre

“(...) da sexta-feira sábado e domingo
sem uma namorada pra fugir de mim.”

Alquimia surpreende quando encontramos, além dos poemas contemporâneos, pequenas histórias e fragmentos de contos apontados pelo poeta como “textos sem conexão e curtos demais”. O que me parecem? Trechos de um romance que ainda virá. Romance que o próprio poeta guarda no punho, sem talvez nem o saber. Acredito em uma prosa envolvente tanto quanto seus poemas e que despertará em seus leitores a curiosidade e o interesse ao ponto de obrigá-los não apenas a ler, mas também a devorar cada palavra em busca de um novo capítulo ou mesmo livro.

Débora Linden Hübner
http://www.vidaemversos.blogspot.com






FERIDA

E por que diabos vinhas
massagear-me os pés
que nem doíam?

E por que diabos não vens
agora que dóem e os tens?

02/12/03


BALEIA

Nos fins de semana
há ainda uma tensão interna intermitente
(agora leve)
que não consigo explicar racionalmente
(ombros em chamas).

Como a baleia
(lá no fundo)
sob o gelo ártico
(frio, frio, frio)
sentindo que vai acabar
o ar em seus pulmões.

07/12/03


QUANDO CHOVE

A Tanussi Cardoso

Quando chove eu chovo e molha a mão do guarda
mas isso é a típica coisa que não importa
pois a chuva chovo lágrima
e a estrada aberta à frente chama a ir adiante – sozinho – olhando as próprias pegadas
chorando a multiplicidade aquosa celeste
caindo sem fundo nem beira
besteira pensar em guardas
besteira guardar algo
tendo toda essa tristeza
lendo toda a crueza de Nietzsche
sabendo que ele tem razão.

Ao menos não quero mais mudar o mundo.

17/12/03


SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Quanto mais vazia
for a vida nas cidades
mais quentes queimarão
as paixões
nos loucos corações
que não vêem calmamente a novela das oito.

Puta que pariu, eu sei o que eu quero
faz anos que eu sei o que eu quero
não há NADA entre mim e o que eu quero
os olhos quentes provam que eu sei o que eu quero
(é por querer que escolhi sem querer este filme).

- Eu sou o que quero quando escrevo.

06/01/04


AUTO PREDOMÍNIO PRESERVATIVO (OU SOBRE O AMOR LIVRE)

Não, não é preciso
concentrar a paixão
num só ser alheio
(prisão
onde a gente
se desaprende
e se prende)

A vida é plena
o tempo é curto:
apaixone-se pelo mundo.

06/01/04


O ÚLTIMO SAMURAI

Sonhei com a lâmina
que vi na sétima arte
lágrima.

À tarde, pétalas de flores rosadas
planaram lentamente
sobre minha ira.

Nem que seja para a morte
é preciso ir em direção ao certo
e amar cada passo.

18/01/04


SOL E CÉU

Fazer cada pequena coisa
perfeitamente
requer tempo e paciência
que temos em alguma árvore perdida.

Ouço suas folhas.

19/01/04


SEM TÍTULO

Chove lá fora.
Foda-se o mundo.

Dentro de mim, um silêncio profundo
imita as artes musicais
em plenitude instantânea com a palavra ainda não escrita.

A arte imita
a vida?

Não,
a arte cria
a vida.

Sem data


VELHA DÚVIDA

Para Gi

Da procura vem
o encontro.

E quando
se dá o roçar
de asas de almas
devo deixar trancada
pelos traumas
a gaveta incandescente
das paixões
das dores ardentes
dos lábios quentes tocados
do passado
ou viver o presente
e abrir?

21/01/04


DESESCRITÓRIO

Meu templo budista são estas paredes geladas
do escritório estreito que não largo
a ameaça do telefone em silêncio
eu me procurando eu me procurando
sem entrar direito nem escapar de vez
sem saber se saio ou agradeço pelas correntes
e a conta corrente que se enche mês a mês.

21/01/04


BANDEIRA DO JAPÃO

A lâmina salva
a letra exata
do ciclo vazio.

Espadas de Samurais
guardam almas.

Escrever é mais.

25/01/04


MISSÃO

Palavras borbulham
no dentro.

Lava lava algo interno
mas leva tempo
para sair.

Fogo:
dragão que voa
e só voa
quando toca
outro.

Está na palma da tua mão
a missão.

BH, 05/02/04


TRILOGIA EM UM ATO

Alguém ri em meu sonho
alguém ri de meu sonho.

Há cordas segurando punhos fechados
sangue em palavras trancadas no armário
escrita sagrada
a palavra morta
uma ou duas espadas
três ou quatro portas...

escrevo abrindo e cravando
tentando e tentando
achar o que já é.

Alguém ri em meu sonho
alguém ri de meu sonho:
eu.

20/02/04


INEVITÁVEL

Mãos vermelhas.

O caos arranha a calma
no íntimo, entanto
danço com o demônio
sob a luz do luar.

Venta a ira.

Crave a vida em minha alma
vinte e sete espadas:
não evitarei
a vigésima oitava.

Fogo.

Sem arma possível ou armadura plausível
fortaleço o etéreo
com o canto do aço
e levanto da sombra de sangue
sorrindo.

21/02/04 


SERÁ ELA?

Que seja o amor romântico uma invenção ortodoxa para nos fazer sofrer...
Eu creio no amor romântico e na dor nada silenciosa que ele traz.
Pois não me basto.

23/02/04


CARNAVAL

Ando do quarto pra sala
da sala pro quarto
nada na TV
ninguém na internet
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
faço flexões, abdominais, ando na esteira
mato o invisível com o nunchaco e a katana
tomo banho
compro um filme na TV a cabo
ando pela casa
ninguém na internet
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
leio um romance
o telefone não toca
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
e não ligar para alguém que eu possa me arrepender
então ligo para quem nem quer atender
e como os calóricos biscoitos
para poder me culpar de algo
com guaraná Antarctica, que é nacional
e venho escrever mastigando
o guaraná estalando
e minha vó sofrendo lentamente na CTI do hospital.

24/02/04


OPÇÕES

Os tentáculos
do sistema
me envolvem
me abraçam...

Tenho espada.

Fugir é fuga?
Ficar é fuga?

Não tenho pressa...

08/03/04


ADEUS, EMPREGO

Cortei.

Basta agora
embainhar a espada
e ouvir o deslizar do tempo
sem as agruras de semear o vindouro.

Sem medo e sem
semeadura:
prazer no presente.

12/03/04


MEDO E CAPITAL

Bebe, come e engorda
o capital do medo.

O berço balança
com explosões terroristas
e crianças fuzilando crianças
nas escolas da Liberdade.
(com as armas de pais com medo em suas casas trancadas)

O capital
bebe do medo
come do medo
engorda do medo.

Caem prédios, explodem trens:
magros loucos desorientados facínoras fanáticos fascistas...

Façamos seguros...
Seguro-saúde, seguro do carro, seguro-desemprego, seguro da casa...
Façamos seguros, que o pânico tem família para criar
e cair nas mãos do amanhã não é seguro.

O medo está com obesidade mórbida.
E quanto maior, mais come.

O medo vende jornal
dá ibope
deixa mais medo em cada um
e se enche de dinheiro amedrontado
para poder comer ainda mais
e dividir menos.

17/03/04


LIBERTAS

Ouço o Réquiem de Mozart
e cuspo culpas
cristãs
acumuladas
repetidas
e ensinadas
cruz abaixo.

Não, eu não participei
nem gozei
no pecado original
ou na Santa Inquisição.

Não tenho
o ouro
do Vaticano.

E nunca ofereci
a outra face
pra uma porrada certa.

11/04/04


APONTAR

O que é o louco
sem o olho
do outro?

17/04/04


CONSELHO LIBERTÁRIO

Tome cuidado
com o cuidado.

24/04/04


LIVRO

Um livro bom é espelho
aonde a gente se vê:
é o caminho do meio
de quem escreve e quem lê.

25/04/04


ROLANTES

Sentado à mesa do shopping
com um poema no palato
constato:
desconhecia
que desconhecia
tanta gente.

(E ainda quero comprar uma caverna.)

26/04/04


ESCREVER LAVA

Geralmente é quando leio
que o silêncio crepita distante.

É preciso então parar.
Prestar atenção:

Uma folha em branco
para conter a luz
antes que se perca
no escuro labirinto do momento.

Sinto
no ar seco
a invisibilidade
a que aspiro.

E na catedral inexistente
acendo uma vela imaginária
com a palavra.

27/04/04


MULHER DE CAMISA BRANCA E VERMELHA NO SESC DE MADUREIRA

Mesmo com todo esse Budismo
ainda consigo
me apaixonar pelo impossível.

15/05/04


AUTOBIOGRAFILHA ALHEIA

Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!
Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.
O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.
Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas... Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.
O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.
O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio... Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo... E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda... E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.
Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.


QUERIDO DIÁRIO

E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá... e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades... E olha que fiz pública!
Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas dentro desse maldito sistema...
E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria
poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô... Deve haver mais. Tem que haver mais!
Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância... vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.


MINHA SOLIDÃO DELICIOSA

O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?
Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranquilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.
Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?
Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever...


(Fabio Rocha)

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