segunda-feira, 21 de junho de 2010

AUTOCLAMADO

se vento, inclinar
se chuva, banhar
se treva, dormir
se fogo, aquecer...

nada
poder
afetar
além
do próprio
olhar

ser
a própria mão a se acalmar
o acolhimento da casa
o velho amigo
a chegada

vigiar o controlável
aceitar o incontrolável
buscar apenas versos
sonhar não mais que palavras

(Fabio Rocha)

O SOL INTERIOR

Adivinhar a serenidade da montanha
através das nuvens
e a fertilidade das cinzas
por meio do fogo.

(Fabio Rocha)

domingo, 20 de junho de 2010

Whatever Works (Tudo pode dar certo, EUA, 2009)

É inacreditável. Se repete, mas é. Você dá um mínimo passo na direção certa e vida te premia. Acabo de assistir ao melhor filme da minha vida. Sim, melhor que Matrix. E no momento perfeito... (Falando do filme daqui pra frente, mas não tem spoiler não.)

Na primeira cena, você já ve que a personagem principal, pra variar, é o Woody Allen, como sempre com alguma pequena mudança nos detalhes... No meu caso, também me senti refletido imediatamente. Mais ainda com a personagem falando diretamente pra câmera, como Machado de Assis conversando com o leitor, que me inspirou a fazer isso em alguns poemas também. É uma obra destruidora de barreiras... Você pode ser o que for, cineasta, poeta, físico, ou passeador de cães, mas saiba que vai se sentir refletido também em uma ou mais personagens. Estamos muito perto, somos basicamente os mesmos desejos, as mesmas agonias, as mesmas dores, os mesmos sintomas, os mesmos sonhos, as mesmas manias... Só mudam pequenos detalhes. E o filme mostra o devir da vida e das relações sem culpar ninguém. Sem culpar ninguém, olha que maravilha essa forma de ver a vida, além do bem e do mal. Exibe magistralmente como as pessoas mudam, crescem, evoluem com o tempo, o viver e o sofrer. A forma como expõe imprevisibilidade da vida me fez sentir melhor que nunca o amor fati de Nietzsche, que sempre misturo com sua teoria do eterno retorno, que, muito resumidamente, nos faz aceitar e afirmar todas as nossas histórias, todo o nosso passado, a ponto de sorrir se tivéssemos que repetir eternamente tudo exatamente igual, para sempre. (Quem quiser bisbilhotar mais minhas filosofadas maiores, o blog é http://filosofando-fabio-rocha.blogspot.com ). É um filme onde você se sente integrado à humanidade, e em paz (mesmo que seja quase um ET, como a personagem principal). E querendo aproveitar as coisas boas da vida (whatever works) no agora, mesmo que acabem, mesmo que mudem, que sofram os efeitos do devir... Alto astral, filosófico, com boas sacadas psi, poético, bem dirigido, diálogos inteligentíssimos, atuações perfeitas (Woody Allen sempre descobre uma mulher linda por quem a câmera se apaixona, e nós junto), centrado em pessoas, humano, demasiado humano... Não deixem de ver com carinho.

VOLTANDO PRA YOGA

parei de adiar a parada
depois da caminhada

sem hora pra voltar
sem ter que fazer nada
sem ter que conseguir tudo

a Terra abaixo girando devagar
um piano gravado em algum tempo
em algum lugar
é meu som

ciclistas passando numa competição
ciclistas morrendo caídos no chão
(ambulâncias, alto-falantes, produtos, empresas, logomarcas...)

eu respirando fora da pista
fora da pressa
o ar gelado, o vento bom

sem esperar
nada de ninguém
nada do destino
nada de mim mesmo
nenhuma iluminação
bastando poder pagar
os três reais pela água de coco
e me esquentar ao sol
olhando o mar

(Fabio Rocha)

sábado, 19 de junho de 2010

PENSE AZUL (HADOUKEN)

música alta saindo do nada
olhos fechados para ver tudo

o mar
a vontade
a água

onda
quando do momento da onda
e-x-a-t-a-m-e-n-t-e
nem antes
nem depois

círculo símbolo infinito
o equilíbrio do desequilíbrio
roda da fortuna nas mãos de um homem
o controle do incontrolável
todo uno
raios
nada impossível

UM GRITO!

(criação)

(Fabio Rocha)

PROBLEMA DE FÁCIL SOLUÇÃO

não gosto de copa
nem de cozinha

futebol é a coisa mais idiota já inventada
depois da novela e do telejornal
(não necessariamente nessa ordem)

não gosto de copa
nem de cozinha

não quero ninguém perto
não quero ir sozinho

(Fabio Rocha)

BUDISMO?

quero matar com uma lança
toda e qualquer espera
toda e qualquer esperança

(Fabio Rocha)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

MISSÃO IMPOSSÍVEL - AMAR

quando você chegar
tão nova tão
antiga
soaremos a melhor cantiga
de ninar
e o mundo
se autodestruirá
em trinta segundos

(Fabio Rocha)

SARA, MAGO

Sara sim.

Até a morte do pé
tem cura:
frutos.

(Fabio Rocha)

SUBLIME

fui beber água
ouvindo música clássica
e ela veio na direção contrária

como um raio
um susto
um soco na boca do estômago

inesperada avidez
(água nas mãos)

- a beleza é imediata

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

ALVO SOL (E OUTRAS METÁFORAS E GARÇONS E COQUETÉIS)

faltam
três horas
trocentos trinados
trezentos galos
para algum sentido embelezado com auroras e camarões
(lágrima cansada, inútil, sazonal e monótona cá dentro pendurada sem
cebolas)

sempre erro o jeito de entrar
sempre erro o jeito de, discreta e misteriosamente, entrar
sempre erro o jeito de, como quem não entra, entrar
(e também a hora)

restaurante lotado, longe, tudo difícil

luta longa declarada

nó górdio, voadora na nuca

saborear quase o melhor prato
depois insossas batatas
depois cavucar as latas
com a fome aumentando em vez de saciada!

(tudo queimado)

sempre erro a hora de sair
sempre erro a hora de pedir as contas
sempre erro a hora de trincar os dentes
sempre erro a hora de sair
(e também o jeito)

luto

(se eu fosse pro circo seria palhaço)

tudo tão imperfeito sempre
tudo tão agonizantemente pouco

luto

e seguir gritando brilho
no dia seguinte inimaginável
e seguir cantando sempre
amar-elo
sorrindo
adiante
alto alvo avante
(até a próxima morte
até a próxima noiva
até a próxima noite
até a próxima vulva
até a próxima
até a última)

(Fabio Rocha)

SÓ POR HOJE

hoje eu quero ser
triste
sem me justificar com um poema
sem explicar porra nenhuma com um poema
sem tentar me entender com um poema

hoje eu quero ser triste
em silêncio
quieto no meu canto
sem ninguém lendo

(dito isto, aí vai um poema)

(Fabio Rocha)

DEPOIS DE CERTA IDADE

feridas se beijam
chagas de antes
molhadas de pus

cicatrizes se tocam
crostas de passado
lixando asperezas

os mais covardes
preferem bungee jumping

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

LOOP

olho as normas
da liberdade:
vejo grades

(Fabio Rocha)

APENAS FOGO NAS PENAS

caramujo saindo da casca
(será que chove?)
coloco a mão para fora da cobertura do telhado
(Pessoa para fora da possibilidade do soco)
engatinho letra a letra
na lama lúgubre
venta

de quando em vez encolho antenas
(mulheres de Atenas)

chove
não enche

Barros me lêem
samurai

não mais que de repente
estar de pé
e o primeiro passo
não tão primeiro
na estrada nova
não tão nova

virão âmbar e pedra e tudo novo de novo não tão novo
(tão certo como dois e dois são cinco)
mas vou sem lenço sem documento
viver dez, viver cem, viver mil

sorrio sem o menor motivo
(me dê motivo...)
e escolho o ritmo dos passos

não sei ser parado
nem Madre Tereza de Calcutá
sempre ando armado de música
e cabem cantos no espaço

Santa Clara, clareai!

luz do sol
eu passarinho

(Fabio Rocha)