segunda-feira, 25 de julho de 2005

e-book O Outro (2005) - revisado em 2014









O Outro

Fabio Rocha





Copyright © 2005 por Fabio Rocha - revisado em 2014




Registro EDA – Biblioteca Nacional:

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: O OUTRO
No. Registro da Obra: 347810
Livro: 640
Folha: 470
Data de Registro: 25/7/2005
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não




Título original: O Outro




Editoração eletrônica: Fabio Rocha




Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br











Sangro mas não choro
Rubens da Cunha


Fabio Rocha é um poeta surpreendente. Dono de uma produção contínua, publicada tanto em livros reais, quanto em livros virtuais. Objetos diferentes para comportar uma obra poética que se diferencia pela crueza direta da coloquialidade: “caralho, estou fazendo um poema” por aquela simplicidade aparente, pois seus textos estão agarrados no cerne das questões cotidianas: “Estou amargo como o aspargo que não comi”.

Neste “O Outro” há uma certa revolta, provocada pelo indivíduo preso na cidade gigante: “O que eu quero tendo raiva dessas manifestações mínimas que me aparecem milagrosamente numa cidade sem amigos, de amigos distantes, de amigos ocupados, de nenhuma amiga?” A solidão imposta pelo ambiente conturbado é combatida por Fabio com ironia, um preciso humor amargo, mas nunca negro ou agressivo. O humor dos poemas manifestam uma vontade intrínseca de que tudo poderia ser diferente, mas infelizmente não é.

Todas as relações humanas, as desconexões entre os seres, as dúvidas quanto à própria função de poeta neste caos, perpassam este livro, feito estiletes invadindo nossas verdades estabelecidas.

Fabio não considera sartrianamente os outros como inferno. Em certo momento diz “eu tento ser perfeito para o outro” e nesta tentativa (a tentativa de todos nós) erra e acerta, escorrega e reclama. Humano demasiado que é, expõe o os joelhos ralados no poema, imiscuindo o eu-Fabio Rocha, o eu-lírico, o eu-leitor numa coisa só. Mesmo quando se tranca, o mundo externo retém toda a sua atenção, a sua necessidade de ser compreendido. Em Umbral, um dos mais belos poemas do livro, percebe-se esta dualidade: eu x mundo.

Estou trancado.

Lá fora
leões
que amo.

A casa encolheu
ou eu que cresci?

Estou armado até os dentes.
Eles têm fome.
Ouço seus rugidos.

(Algo em mim quer ser um monstro.)

Cansado de ferimentos
olho para a porta
a chave pesando a mão.


O homem sendo diferente - a maldição da sensibilidade - deseja entre parênteses ser um monstro, pois lá fora estão os leões que ama, lá fora está a vida que o seduz e repele, “suicida sem coragem”.

Neste percurso cotidiano, de frieza, de mundo em guerra, os poemas vão dialogando com outros autores: Drummond, Cecília, Cazuza, vão tentando entender a força descomunal da contemporaneidade consumista, alarmista, indiferente: “o cotidiano me cospe me corta me cota em minhas costas o peso do não ser”, ao mesmo tempo em que busca soluções: “É parando que se chega perto de ser você mesmo” e no meio de tudo tenta convencer o labirinto que há firmeza e vontade.

No alto desta poética afetada pelo mundo externo, que busca diálogos interpessoais com “morcegos absurdos”, o poeta grita: “sangro mas não choro”. Estaria mentindo ou dizendo a verdade? Descubra você, invadindo este “O Outro” descobrindo-lhe as artimanhas e a beleza.

Rubens da Cunha
http://www.casadeparagens.blogspot.com












FOGO: ARTIFÍCIO

“Você sai de perto
eu penso em suicídio”
Cazuza

(Para Viviane Marques)

A paixão, chama de um gato
(cheio de carrapatos)
corre por dentro em mim sem botas
renovando-se, repetindo-se, crescendo
com o Bolero de Ravel
procurando um canto calmo
para explodir
num orgasmo alto
e me levar com ela
e me lavar com ela.

19/06/04



SOLTEM MEU BRAÇO

“Hoje eu acordei com medo, mas não chorei
nem reclamei abrigo.
Do escuro, eu via um infinito sem presente
passado ou futuro.”
Cazuza

Sou aquele
dos grandes pensamentos
filosófico-existenciais.

Que se perde
em palavras
e sonhos altos demais.

No entanto
no básico
cotidiano, simples, real, abominável
sou só
(suicida sem coragem).

22/06/04



HOMEM: PÁSSARO

Há um ninho torto
que faço
em desalinho em minha mente
e passo
simplesmente ao acaso das feias tranças de fora
(espantando amigas formigas ambíguas que não como nem saem de perto)
espasmos
de um lar que duramente a mente faz
(e facilmente se desfaz)
e me faz bem
quente, seguro e meu
dentro.

16/07/04



SILENCIOSO FRIO

Estou amargo
como o aspargo
que não comi.

25/07/04



NOVA FORMA DE VIDA

Pressa ou bebida ou imprudência
ultrapassagem ou derrapagem ou sacanagem
uma cambalhota duas cambalhotas
uma pirueta duas piruetas
ferro range
metal corta carne
osso entorta
cartilagem
estalo
escuro.

Silêncio imundo.

Se o mundo se move
se a perna não se move
se a morte se move
se a vida se vai
não se sabe.

O homem-carro
(aracnometalóide antropofagis)
está só
e agora não tem pressa de chegar.

Seus olhos grandes de medo
não vêem luz no túnel do fim.

10/08/04 - O trânsito segue matando mais que qualquer guerra e seguimos usando carros.



NOTURNO

A Mozart e Artur da Távola

Não, não nos basta
o chão.

Por isso, é preciso
vestir-se de estrelas
e cavalgar o sonho
no ritmo do divino.

Esmagados contra a terra
pela grave e forte gravidade
voltamos a face para o céu.

Na alma humana
cabe o universo infinito.

14/08/04



ILLUMINATA

O silêncio da tarde me incomoda.
O silêncio do tarde me arde.

Vou com o vento
coração aberto
carteira vazia
mãos imperfeitas
imaginando o toque da alvorada.

24/08/04



UMBRAL

Estou trancado.

Lá fora
leões
que amo.

A casa encolheu
ou eu que cresci?

Estou armado até os dentes.
Eles têm fome.
Ouço seus rugidos.

(Algo em mim quer ser um monstro.)

Cansado de ferimentos
olho para a porta
a chave pesando a mão.

08/09/04



SEM TÍTULO

Tenho tentado. Ando pelo quarto salgado e não acho o que procurar. Tenho tentado. O tempo, sem passatempo, passa lento. Mas tenho tentado.

11/09/04



SURPLUS

De vez em quando o mundo se divide em tantos mundos que me acho imundo irresponsável adulto demais para tanta indecisão. Sobra idade cronológica, sendo o tempo relativo... Sim, eu vi o documentário Surplus no GNT nesta data querida. Sim, pregava o anticonsumismo como eu um dia preguei nas paredes imaginárias de revoluções de papel que deste não saem. Sim, mas por que isso ainda me toca, me faz criança, me chora, me morde, me culpa? Eu que tinha desistido de pregar o inútil e crescer na moeda... Eu, que briguei com o ócio e fiz as pazes com o Marketing pela sobrevivência de meu ego num possível futuro apartamento próprio meu meu meu onde culpas por ser um parasita familiar de quase trinta na casa paterna e ainda sem emprego fixo de oito horas diárias não entrariam. Não entrariam... No entanto, ainda tateio no quarto não meu com colchonetes para a yoga que não faço atrapalhando a passagem. Também não tenho meditado... Sobra tempo. Que vai ser quando crescer? Drummond ecoa nessa mente velha de criança. Que vai ser quando crescer? Assistente de marketing, Mestrado em Literatura Brasileira, concurso público, poeta, psicanalista futuro, auxiliar administrativo, webdesigner, poeta, contista, ufólogo passado, poeta, desconfiado, quase tarólogo, perdido e (poeta) mal pago. Tateio o ato que de fato eu deveria mas não me conheço. (Nem sei mais se escrevo prosa ou poesia ou porcaria.)

17/09/04



TRÓIA

“Todo dia é dia de viver.” – Lô Borges

Eu subi no cavalo.

Ninguém poderia tê-lo feito em meu lugar.

Eu subi no cavalo
por mim.

Não importa como
não importa quando
muito menos para onde.

Eu subi no cavalo
sob a lua e o sol
apertei as rédeas
sem culpa ou dúvida
celebrei sozinho
e segui o caminho.

Eu no cavalo
o vento novo
eu no controle
a estrada agora linda
o cavalo meu.

22/09/04



STELLA

A estrela
dança branca
no céu de sábado.

Silenciosa e futura.

29/09/04



JORNALZITO

Um homem-bomba sunita
destruiu a mesquita
lotada de xiitas.

07/10/2004



ENROLADOS

Stella e a toalha
Stella é a toalha
circular
eterna
infinita

toalha
girando girando...

Tão longe
quanto eu de mim.

Parecia um fim
mas não houve começo.
Parecia sim...

Stella girando...
Toalha branca...

Quando chove
também temos
que fazer a barba.

Stella girando...
(mais rápido que minha pressa)
Toalha branca...
Sinal vermelho...
Mãos indecisas...
Línguas travadas...

Na tomada
novamente
líquida fica a dor.

É, aceita a derrota
embainha a espada
e vai fazer a barba
com a marca registrada.

20/10/2004



VISTA DO ESCRITÓRIO

Sentado de frente à tela
com a janela ao lado
e o relógio multiplicado
leio
que “para escrever é preciso nunca estar satisfeito”.

Nessas tardes de sexta-feira
dá uma vontade danada
de explodir.

No entanto, algo me segura
se segura
e só sai da cadeia
por palavra.

Cura?

12/11/2004



COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS

O quarto está claro. Luz branca, como uma cozinha. É bom estar num lugar claro numa noite tão fria. A luz parece afastar qualquer ausência. O som da chuva batendo nas folhas lá fora convida à introspecção. Leve. Calmo. É hora de começar um romance.


Escolhi o caminho errado em algum ponto... Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse o que custasse. Ana me falava o dia todo sobre coisas que não interessavam minimamente. Cor de cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara... E eu sabia que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de Ana, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa. Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Ana é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu - mesmo assim - não dava. Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio e a sopa. Ela interrompeu:

- Você que acabou com o sorvete de morango, Felipe?

- Ana, quem mais poderia ter sido?

- Felipe, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!

Era assim que ela tentava me diminuir, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem pra comprar sorvete de morango... E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete era para a empregada.

Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Ana foi pro quarto e se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite do subúrbio carioca.



Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não conseguia sobreviver disso, nem aturar Ana, meu sustento.

Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos “pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga que agora parecia se abater sobre mim... Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa esfriava a minha frente.

Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista de comprar mais e mais... Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não consegui...

Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais. E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam as estatísticas de desemprego.

Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das máquinas de xerox.

Ah, leitor... Esse Felipe que sempre valorizava o ócio, a contemplação... Que criticava o uso atual da expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”... Queria se libertar. E teria que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em troca apenas de um maldito salário.


Ana, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.

Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.

Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os pensamentos fluírem, se misturarem... No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a posição de yoga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela imbecil.

Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?

Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.

E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia, guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim, como exigir qualquer coisa?

Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.


Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Ana e vi a vizinha manca subindo. Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando ostras no quintal da casa da Ana. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer “Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha nosso vizinho falecido. Eu não compreendia e concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio, não lembro onde. Ana agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Felipe, comia.

Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, nesse frio ferrado que está fazendo ultimamente.


A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.

Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título para ele... Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem sentido.

- Opa. Felipe? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?

Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era fiscal, odiava seu emprego e cismou que eu devia ser funcionário público, que teria mais garantias... Eu era bem preparado, tinha uma faculdade e passaria fácil em algum, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não conseguira. Depois disso ele sempre dava uma reclamada da vida e, por algum motivo estranho, eu sempre acabava falando demais da minha própria vida pra ele. Ele dava uns conselhos óbvios que me irritavam, mas eu sempre falava demais, reclamava demais, me colocando numa situação de alguém que parece querer ouvir conselhos. Quão complexas as relações humanas... Tio Sávio começou a aconselhar e ouvi. Senti um desconforto por ter que ouvir aquilo e desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Eu até que gostei de falar com ele. Sempre gostava, no fundo. Não sei, racionalmente, o porquê.

Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Ana me pareceu menos sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir como espírito de Deus. Coitada.

29/11/2004



PESCARIA

Com quantas linhas se faz uma lagoa?

16/12/04



CINZA ARCADE

Continuo tonto,
continuo tenso,
continuo, tento
seminu o sonho,
seminário e lenço
- semear, eu penso -.

Se não chego logo,
sinuoso dente
mastigando carne,
mascando chiclete
de mertiolate,
atacando marte
sem sair de dentro...

A tarefa é grande,
Atari não jogo,
isso não acaba
no mesmo lugar,
no mesmo lugar

sem passar de fase.



NOVO ANO NOVO

Este peito que não ama
(só paixões de artifício)
é tambor tentando libertar
o som invisível.

Explode
como se pânico
motivo fosse
para continuar a semear vermelho
sob a pele branca.

Lá em cima
um céu novo
estampado de estampidos e vésperas
cheio de histórias interrompidas
do ano passado a ferro.

Cato cacos e pistas decorridas
mas não há como entender
as sem razões do órgão

em seguir pulsando.

02/01/05



TRINTA

Trinta minutos para o fim do expediente e eu dirigir trinta minutos para chegar em casa às seis e trinta e jantar em trinta minutos e ver TV por vários trinta minutos e me lamentar por trinta minutos por mais um fim-de-semana sem sentido cheio de trinta minutos sem paixão antes de dormir.

07/01/05



SEMI-ÁRIDO

O menino com o pé na rua deserta
procura emoção
sem chamar por ela.

Precisa
e não precisa
do Outro.

O menino caminha.

Ardem suas costas
áridas.

Além do perto
talvez haja...

No entanto, o perto
o pó
o menino
o passo
deveriam
bastar?

Não...

É preciso emoção.

Pássaros
sobre passos
que passarão.

02/02/05



TIÊ SANGUE NA POUSADA DA FLORESTA

O poema
chama
das matas

(promessa de novo dia)

Oceano
verde
e vasto
ronrona.

Pingos de sol
na água.

Andorinhas
recurvam a tarde.

Esfria.

Ilha Grande, 06/02/05



DO SONHO BESTA

Sim, terei um apartamento mínimo
todo meu
só meu
inteiramente meu...

Para que eu possa
reunir todos os amigos que não tenho
e jogar pôquer.

21/02/05



ESCRIT-ÓRION

Uma mesa e uma tela
uma musa:
uma janela.

24/02/05



DO ESCREVER

Mais importante do que saber a origem arcaica das palavras
seus múltiplos significados e traduções
suas rimas e ritmos
é ter algo a dizer
com paixão.

27/02/05


(Fabio Rocha)

sexta-feira, 18 de junho de 2004

e-book Alquimia (2004) - revisado em 2014






Alquimia

Fabio Rocha




Copyright © 2004 por Fabio Rocha - revisado em 2014



Registro EDA – Biblioteca Nacional:

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: ALQUIMIA
No. Registro da Obra: 323082
Livro: 591
Folha: 242
Data de Registro: 18/6/2004
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não




Título original: Alquimia




Editoração eletrônica: Fabio Rocha




Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br







PREFÁCIO

Percebo em Fabio Rocha um “quê de alquimista”. Aparentemente, o poeta não mistura

“(...) o limo da árvore
ao lume acima das nuvens
pois chove (...)”

como cita seu próprio poema. Mas vejo aquele que mistura palavras, transforma em versos e assim faz surgir poesias de muitos porquês.

Seus trabalhos trazem muitas vezes o cotidiano e a realidade de forma crua e espantosamente poética, que nos levam a um mundo à parte. Fato contraditório, mas para Fabio Rocha, possível.

Diz em Alquimia que devemos nos apaixonar pelo mundo. Mas várias vezes expressa a idéia e a vontade de amar-se internamente, seguir o próprio caminho, ser Deus, ser o presente, enfim, estar consigo e em si. Apesar deste sentimento, admite que não se basta e por isso se apaixona e ama e escreve. É realista e consegue achar o encanto dos sentimentos e sentidos, expressando-se sem deixar sua escrita melodramática. Ah! E Deus lhe livre

“(...) da sexta-feira sábado e domingo
sem uma namorada pra fugir de mim.”

Alquimia surpreende quando encontramos, além dos poemas contemporâneos, pequenas histórias e fragmentos de contos apontados pelo poeta como “textos sem conexão e curtos demais”. O que me parecem? Trechos de um romance que ainda virá. Romance que o próprio poeta guarda no punho, sem talvez nem o saber. Acredito em uma prosa envolvente tanto quanto seus poemas e que despertará em seus leitores a curiosidade e o interesse ao ponto de obrigá-los não apenas a ler, mas também a devorar cada palavra em busca de um novo capítulo ou mesmo livro.

Débora Linden Hübner
http://www.vidaemversos.blogspot.com






FERIDA

E por que diabos vinhas
massagear-me os pés
que nem doíam?

E por que diabos não vens
agora que dóem e os tens?

02/12/03


BALEIA

Nos fins de semana
há ainda uma tensão interna intermitente
(agora leve)
que não consigo explicar racionalmente
(ombros em chamas).

Como a baleia
(lá no fundo)
sob o gelo ártico
(frio, frio, frio)
sentindo que vai acabar
o ar em seus pulmões.

07/12/03


QUANDO CHOVE

A Tanussi Cardoso

Quando chove eu chovo e molha a mão do guarda
mas isso é a típica coisa que não importa
pois a chuva chovo lágrima
e a estrada aberta à frente chama a ir adiante – sozinho – olhando as próprias pegadas
chorando a multiplicidade aquosa celeste
caindo sem fundo nem beira
besteira pensar em guardas
besteira guardar algo
tendo toda essa tristeza
lendo toda a crueza de Nietzsche
sabendo que ele tem razão.

Ao menos não quero mais mudar o mundo.

17/12/03


SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Quanto mais vazia
for a vida nas cidades
mais quentes queimarão
as paixões
nos loucos corações
que não vêem calmamente a novela das oito.

Puta que pariu, eu sei o que eu quero
faz anos que eu sei o que eu quero
não há NADA entre mim e o que eu quero
os olhos quentes provam que eu sei o que eu quero
(é por querer que escolhi sem querer este filme).

- Eu sou o que quero quando escrevo.

06/01/04


AUTO PREDOMÍNIO PRESERVATIVO (OU SOBRE O AMOR LIVRE)

Não, não é preciso
concentrar a paixão
num só ser alheio
(prisão
onde a gente
se desaprende
e se prende)

A vida é plena
o tempo é curto:
apaixone-se pelo mundo.

06/01/04


O ÚLTIMO SAMURAI

Sonhei com a lâmina
que vi na sétima arte
lágrima.

À tarde, pétalas de flores rosadas
planaram lentamente
sobre minha ira.

Nem que seja para a morte
é preciso ir em direção ao certo
e amar cada passo.

18/01/04


SOL E CÉU

Fazer cada pequena coisa
perfeitamente
requer tempo e paciência
que temos em alguma árvore perdida.

Ouço suas folhas.

19/01/04


SEM TÍTULO

Chove lá fora.
Foda-se o mundo.

Dentro de mim, um silêncio profundo
imita as artes musicais
em plenitude instantânea com a palavra ainda não escrita.

A arte imita
a vida?

Não,
a arte cria
a vida.

Sem data


VELHA DÚVIDA

Para Gi

Da procura vem
o encontro.

E quando
se dá o roçar
de asas de almas
devo deixar trancada
pelos traumas
a gaveta incandescente
das paixões
das dores ardentes
dos lábios quentes tocados
do passado
ou viver o presente
e abrir?

21/01/04


DESESCRITÓRIO

Meu templo budista são estas paredes geladas
do escritório estreito que não largo
a ameaça do telefone em silêncio
eu me procurando eu me procurando
sem entrar direito nem escapar de vez
sem saber se saio ou agradeço pelas correntes
e a conta corrente que se enche mês a mês.

21/01/04


BANDEIRA DO JAPÃO

A lâmina salva
a letra exata
do ciclo vazio.

Espadas de Samurais
guardam almas.

Escrever é mais.

25/01/04


MISSÃO

Palavras borbulham
no dentro.

Lava lava algo interno
mas leva tempo
para sair.

Fogo:
dragão que voa
e só voa
quando toca
outro.

Está na palma da tua mão
a missão.

BH, 05/02/04


TRILOGIA EM UM ATO

Alguém ri em meu sonho
alguém ri de meu sonho.

Há cordas segurando punhos fechados
sangue em palavras trancadas no armário
escrita sagrada
a palavra morta
uma ou duas espadas
três ou quatro portas...

escrevo abrindo e cravando
tentando e tentando
achar o que já é.

Alguém ri em meu sonho
alguém ri de meu sonho:
eu.

20/02/04


INEVITÁVEL

Mãos vermelhas.

O caos arranha a calma
no íntimo, entanto
danço com o demônio
sob a luz do luar.

Venta a ira.

Crave a vida em minha alma
vinte e sete espadas:
não evitarei
a vigésima oitava.

Fogo.

Sem arma possível ou armadura plausível
fortaleço o etéreo
com o canto do aço
e levanto da sombra de sangue
sorrindo.

21/02/04 


SERÁ ELA?

Que seja o amor romântico uma invenção ortodoxa para nos fazer sofrer...
Eu creio no amor romântico e na dor nada silenciosa que ele traz.
Pois não me basto.

23/02/04


CARNAVAL

Ando do quarto pra sala
da sala pro quarto
nada na TV
ninguém na internet
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
faço flexões, abdominais, ando na esteira
mato o invisível com o nunchaco e a katana
tomo banho
compro um filme na TV a cabo
ando pela casa
ninguém na internet
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
leio um romance
o telefone não toca
tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé
e não ligar para alguém que eu possa me arrepender
então ligo para quem nem quer atender
e como os calóricos biscoitos
para poder me culpar de algo
com guaraná Antarctica, que é nacional
e venho escrever mastigando
o guaraná estalando
e minha vó sofrendo lentamente na CTI do hospital.

24/02/04


OPÇÕES

Os tentáculos
do sistema
me envolvem
me abraçam...

Tenho espada.

Fugir é fuga?
Ficar é fuga?

Não tenho pressa...

08/03/04


ADEUS, EMPREGO

Cortei.

Basta agora
embainhar a espada
e ouvir o deslizar do tempo
sem as agruras de semear o vindouro.

Sem medo e sem
semeadura:
prazer no presente.

12/03/04


MEDO E CAPITAL

Bebe, come e engorda
o capital do medo.

O berço balança
com explosões terroristas
e crianças fuzilando crianças
nas escolas da Liberdade.
(com as armas de pais com medo em suas casas trancadas)

O capital
bebe do medo
come do medo
engorda do medo.

Caem prédios, explodem trens:
magros loucos desorientados facínoras fanáticos fascistas...

Façamos seguros...
Seguro-saúde, seguro do carro, seguro-desemprego, seguro da casa...
Façamos seguros, que o pânico tem família para criar
e cair nas mãos do amanhã não é seguro.

O medo está com obesidade mórbida.
E quanto maior, mais come.

O medo vende jornal
dá ibope
deixa mais medo em cada um
e se enche de dinheiro amedrontado
para poder comer ainda mais
e dividir menos.

17/03/04


LIBERTAS

Ouço o Réquiem de Mozart
e cuspo culpas
cristãs
acumuladas
repetidas
e ensinadas
cruz abaixo.

Não, eu não participei
nem gozei
no pecado original
ou na Santa Inquisição.

Não tenho
o ouro
do Vaticano.

E nunca ofereci
a outra face
pra uma porrada certa.

11/04/04


APONTAR

O que é o louco
sem o olho
do outro?

17/04/04


CONSELHO LIBERTÁRIO

Tome cuidado
com o cuidado.

24/04/04


LIVRO

Um livro bom é espelho
aonde a gente se vê:
é o caminho do meio
de quem escreve e quem lê.

25/04/04


ROLANTES

Sentado à mesa do shopping
com um poema no palato
constato:
desconhecia
que desconhecia
tanta gente.

(E ainda quero comprar uma caverna.)

26/04/04


ESCREVER LAVA

Geralmente é quando leio
que o silêncio crepita distante.

É preciso então parar.
Prestar atenção:

Uma folha em branco
para conter a luz
antes que se perca
no escuro labirinto do momento.

Sinto
no ar seco
a invisibilidade
a que aspiro.

E na catedral inexistente
acendo uma vela imaginária
com a palavra.

27/04/04


MULHER DE CAMISA BRANCA E VERMELHA NO SESC DE MADUREIRA

Mesmo com todo esse Budismo
ainda consigo
me apaixonar pelo impossível.

15/05/04


AUTOBIOGRAFILHA ALHEIA

Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!
Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.
O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.
Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas... Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.
O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.
O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio... Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo... E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda... E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.
Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.


QUERIDO DIÁRIO

E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá... e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades... E olha que fiz pública!
Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas dentro desse maldito sistema...
E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria
poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô... Deve haver mais. Tem que haver mais!
Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância... vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.


MINHA SOLIDÃO DELICIOSA

O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?
Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranquilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.
Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?
Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever...


(Fabio Rocha)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

e-book Liberdade (2003) - revisado em 2014








Liberdade


Fabio Rocha




Copyright © 2003 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FABIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: LIBERDADE
No. Registro da Obra: 307027
Livro: 559
Folha: 187
Data de Registro: 11/12/2003
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Liberdade




Editoração eletrônica: Fabio Rocha









Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br






Dedicatória

Para Fellipe Cosme, Ricardo Alfaya e Rodolfo Muanis, os poetas vivos com quem mais convivo e aprendo, mesmo que virtualmente...
Cada linha neste livro leva um pouco de vocês.

















Prefácio
por Ricardo Alfaya*

Caro Fabio,

Acabei de ler seu novo livro, penso que está muito bom. Ao contrário de outras vezes, você partiu de um título aparentemente direto, sem ambigüidade: LIBERDADE. Entretanto, conforme vamos lendo a obra percebemos que a ambigüidade persiste no sentido paradoxal das atitudes e crenças do "eu-lírico", que ora parece crer de fato numa forma de libertação possível, ora desfalece, reconhecendo a impossibilidade de qualquer utopia libertária, até mesmo individual, nesses tempos descrentes e sob o sistema opressivo implementado pelas transnacionais.

Há um aspecto muito original na poesia que você está fazendo, e que ainda não vi em ninguém mais: consiste nesse caráter autobiográfico, quase seqüencial de seus escritos. De certo modo, sua poesia tem algo de romance. Lá estão seu emprego, Marise, seu pai, eu, Tanussi, suas leituras, sua psicanálise. Há um certo toque de Proust nisso, só que você não corre atrás de um tempo perdido no passado, você suspeita da possibilidade do "Carpe Diem", do aproveite agora, do viva agora. Há uma certa noção de que o tempo perdido É AGORA! São tantas as barreiras, os sufocos, os empecilhos para o exercício da "liberdade" (condição inerente ao "ser" humano, segundo Sartre) que não sobra lugar nem para o desespero, ou melhor, até ele se transforma em perplexidade.

E aí entra a questão: fazemos poemas ou poesia? Isto é, existe um certo critério, um certo mandamento de fazer poesia que se torna difícil de atender, posto que a realidade que vivemos é tão sem poesia (num certo sentido, naturalmente), que não há de onde extraí-la. A questão, assim, do de onde "inventar" a poesia se torna recorrente na obra. São questionamentos constantes, persistentes.

Acho que por alguns de seus poemas dá para perceber, suspeitar, talvez de uma certa dúvida sobre quanto a validade poética do que você faz. Na verdade, o problema não está em você. Quando digo que gosto de sua poesia, eu o faço de coração e sei que tenho argumento. Entretanto, nem eu, nem ninguém, detém no momento o poder do critério definidor do que hoje seja boa poesia ou não. Essa é a luta monstruosa e dilacerante que se trava no cenário. É imprudente e inconveniente citar nomes, mas é claro que se A, B e C fazem e defendem um tipo de poesia que não se parece nem de longe com o que você faz, então começa a surgir aquele mal-estar, de que de repente apenas um dos dois está com a poesia, o outro não. Na verdade são premissas falsas, pois a convivência pacífica de gêneros diversificados é perfeitamente possível. Ou melhor, seria, uma vez que a História mostra que os que ficam são sempre poucos. Em geral, os melhores. E quem são os melhores? Ora, a resposta vai depender da boca de quem a disser. Em termos de poesia, vivemos num tempo em que se digladiam opiniões não apenas de pequenos grupos, mas também de poetas individualmente considerados.

Há muito cheguei à conclusão de que o poeta brasileiro contemporâneo não deve contar com qualquer unanimidade. Haverá o grupo dos que dele gostarão. Haverá aqueles que, por variados motivos, nunca lhe darão qualquer oportunidade. As exceções, se existirem, serão pouquíssimas. Porém, nem isso é garantia, pois, embora não chegue a dizer, como Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra, devemos admitir que pelo menos suspeita ela é. Por certo muitos não ousam questionar publicamente qualquer personalidade muito cortejada, menos por a amarem do que por temor às conseqüências do imprudente gesto. É uma cartada muito alta, que pode até consagrar quem a faça, mas que também pode expor o indivíduo ao ridículo e à execração pública, de maneira irreversível, como é o caso do cidadão que recentemente ousou afirmar na Internet que Drummond não era poeta por nunca ter escrito um poema dentro dos rigores da métrica e da rima.

Um outro aspecto ainda que notei em sua poesia, mais do que das outras vezes, é uma consciência maior sobre a natureza de seu trabalho. Quando você questiona, por exemplo o valor da poesia hermética e obscurantista. Sim, sua poesia é mais voltada para a revelação do que para a obscuridade. Cada volume de suas obras contribui para um melhor entendimento do tempo em que vivemos.

Desenvolvi minha própria poesia muito calcada nesse aspecto, do qual nunca dissociei o conhecimento interior, em razão de minha concepção gestaltiana, holística, integrada do eu e do universo. A velha questão: como dissociar rigorosamente o sujeito do objeto, quando nosso próprio corpo, elemento integrante do sujeito, é, no fundo, um objeto como tantos outros? E como tratar como coisa certos objetos com os quais desenvolvemos ligações afetivas "in extremis", como os poemas que fazemos, por exemplo. Sujeitos ou objetos?

Então, é a poesia de que gosto. Respeito, tento ouvir as motivações de certos autores que se entregam a erudições, hermetismos e preciosismos. Não são inteiramente desprovidos de razão, posso entendê-los. São frutos de nosso tempo de contradição e perplexidade, de ausência de rumo, da distância cada vez maior entre o homem comum das ruas, mesmo o alfabetizado, e o autor de poesia escrita. De que adianta ser compreensível, se quem nos vai ler é uma elite exigente e competitiva, que vai desprezar o que não lhe pareça sofisticado, requintado? E o poeta, sabendo que escreve para um poeta, tornará seu texto cada vez mais fora do alcance do homem das ruas.

Então, todas essas são questões muito interessantes que você traz para sua obra, uma poesia que, no meu entender, tem condições de agradar tanto ao poeta de mente livre, sem preconceitos estéticos, quanto ao público sensível, observador e letrado em geral.

*Ricardo Alfaya é poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.

Endereço de seu blog Nozarte:

http://nozartecultural.blog.aol.com.br/







PRECIOSIDADE

Valéria tem olhos de medo
como o dos pássaros
pequenos e frágeis.

Há agitação
sob as camadas
de sua plenitude
alva.

Cabelos e plumas se confundem
no lume
que vejo
e que imagino...

Valéria
fala pouco
mas olha muito.

Pra mim, basta.

E sigo, besta
a escrever muito
e falar pouco.

Ah, se nossos silêncios
se tocassem...

5/11/02


DESMOTIVO

Tenho que dar o baço a torcer...

Minhas sinceras congratulações
às psicólogas (sempre a sorrir)
dos processos de seleção
para estágios e trainees.

Eu e meu currículo cheio de página,
línguas, informática, capacitação...
e silêncio.

Talvez seja o silêncio o problema...

Mas também não sou bom ator, não...
E acabo sempre minha participação
na dinâmica de grupo.

Eu, meu silêncio e meu antidinamismo.

Querem pessoas inteligentes, com visão sistêmica e críticas (quem diria?!).
Mas pessoas inteligentes, com visão sistêmica e críticas não quereriam
trabalhar nessa porcaria
e ouvir sermões sobre motivação
para encher mais ainda o bolso mais que cheio do patrão.

Esses contribuintes próativos automotivados
perceberiam a desigualdade imutável
com um pingo de consciência
não quereriam matar indiretamente
crianças africanas de fome,
iraquianas de raiva,
brasileiras de sede...

Não quereriam. Não quereriam...

- Que estou fazendo aqui?

12/11/02


OBRA

Há quatro anos
que,
grudado no meu quarto,
o vizinho
tenta construir uma casa.

Bate, bate
raspa, raspa
berra, berra
quebra, quebra
chapa, chapa
xinga, xinga

Até agora,
só derrubou uns sonhos
e alicerçou uns poemas.

15/11/02


PUSH

Tanques
estadunidenses
atropelam
Coreanas
adolescentes.

Se dirigir
(um país)
não beba.

25/11/02


RE-TRATOS

Apreciando fotos antigas
notei que em algum ponto de minha vida
meus sorrisos se tornaram falsos.

Tratei do tema
fazendo um poema
com poucos pontos finais.

E agora, de fora das catedrais do tempo
sorrio rimas
tentando encontrar nas ruínas
o que perdi.

3/12/02


CONVOCAÇÃO

Venham a mim os loucos
os roucos, os poucos
os perdidos, vencidos e poetas!

Juntem-se a mim
rasgando gravatas
e quebrando televisores!

21/12/02


A_CORDA

Do amor
conheço dor
e ira.

O resto
é coisa de filme
conto de fadas
ou a rara
aparição quase instantânea
(imaginária?)
de um possível
nariz de gnomo
no jardim morto.

29/12/02


MISSÃO

A garça lê
o rio
paciente.

31/12/02


LIQUIDE A DOR QUE FICA

Para Marise

O que aqui gira
é Marisa Monte
biquíni colorido
mentira
lâmina de barbear
asa de anjo
nada
mar
Marise
e uma pitada de faltar.

04/01/03


LÍQUIDA, FICA A DOR

Para Marise

Após adicionares água,
sem mágoa, me pergunto, preocupado,
se misturar beijos e similaridades
pode dar amor como resultado.

07/01/03


ENSAIO SOBRE O ÍNTIMO

A Fellipe Cosme

I.
Abri o livro
e o metralhar de pensagens
me abriu
olhos, janelas e miragens
que nem me sabia haver.

Dentro ficou maior
e
li
a
luz.

II.
Eu quis asas.
Doeu
mas saíram.

Quis voar.
Deu um trabalho danado
mas voei.

Percebi
então
a gaiola
ao redor.

T-R-A-N-C-A-D-A.

Me revoltei
até descobrir
que eu era a porta.

17/01/03, após ler o livro “Vozes Mudas” de Fellipe Cosme


ODONTOSAGA

Minha independência
depende
da extração de ideais.

06/02/03


CONFISSIONÁRIO ATRÁS DO ARNALHO

Tenho lido tantas críticas e análises
profundas literárias
que não entendo mais
o que escrevo.

10/03/03


PROFISSÃO PRIMEIRA

Invisível
na carteira:
profissão - poeta.

12/03/03


SUBÚRBIO

Para os (outros) moradores de Maria da Graça

As pessoas na rua
aplaudem
as casas sem campainha.

05/04/03


NOVA VISÃO DO AMOR

Os amantes se fodem.
O amor não.

Quero a decência
de um amor em decadência
morno quase morto.

O amor tranqüilo
é a paisagem
não vista:
a conformação
do não chegar
ao horizonte.

Paz sem abismo.

17/04/03


JESUS

Há estátuas demais
de assassinos sobre cavalos
políticos corruptos
e heróis de guerra.

Há demais...

Há crianças demais
brincando de ter
de controlar
ou de vencer.

Há demais...

Salvem as exceções,
nossa salvação:
o de menos.

04/05/03


DO SONHAR

Para tia Mayra

Esta noite
sonhei:
estou despertando.

6/6/03


OU MORTE

Na busca
da aprovação alheia
me perdi de mim.

E agora
quase ciente disto
prefiro ao dólar, o capim.

09/07/03


CASAMENTO DE IRMÃ

Para Roberta

Na tarde seguinte
era domingo
e os passos leves
na casa vazia
murmuravam ausência.

Na mesa
três pratos
onde sempre houve
quatro.

20/07/03


LE

quero ser Leminski
como Leminski quis
mas o que faz do Leminski
o Leminski que não fiz?

31/07/03


LIMA

Estou
no limite
de me limitarem.

31/07/03


CARO

Perdi os óculos escuros
e ficou claro
que sou aéreo.

31/07/03


A ÁRVORE E O BARCO

E assim sigo balançando
no barco encolhido
vagarando no mar salgado
sem estrelas acima.

Meus sonhos, convicções e vontades
vão e vem
com as ondas
transmutando-se
em espumas
estranhamente diferentes
chocando-se sem cessar.

Com o vento vejo,
uma multidão imensa
de árvores intensas
e terrestres, firmemente terrestres
me acena.

Às vezes
dá vontade
de não ir...

06/08/03


VONTADE

O caminho se estica adiante
negro com linhas amarelas.

No peito
o fogo do juízo final.

Esse motor interno
(de combustão interna)
externa o corpo
adiante.

26/08/03


METAFORIA

Ler é chão
onde se anda
escrevendo.

26/08/03


LOGÍSTICA

Para o professor Ricardo Motta

Caminhão
é um grande caminho
poluído.

26/08/03


CARAMUJO

Quando falo
da casa
não é a casa
lar
lá.

A casa mora em mim.

26/08/03


SEM FORÇAS PARA UM TÍTULO

Era sexta-feira
e o desânimo batia frio
na vidraça.

As árvores balançavam sem sentido
e o tempo perdido
uivava atrás da casa.

Se ao menos uma certeza...
Se ao menos uma conquista...
Se ao menos uma palavra...

(Era bom quando eu chorava)

29/08/03


APONTA

Na ponta do lápis
me vejo
melhor que em espelho.

31/08/03


PATERNIDADE

Há um rio de esgoto
na cidade aberta
cercado de trânsito
por todos os lados.

Urubus negros
se enfrentam
se afrontam
por detritos
em meio à lama negra.

Não quero ser
mas sou
um deles.

A garça branca
contrasta sozinha
com olhos de silêncio...

Ali, no meio,
uma estátua...
uma morta...
silenciosa e incrivelmente branca.

E por mais que eu voe
por mais que me afaste em minha negridão
sempre há uma garça branca
na beira do rio
olhando
lá do alto
de seu silêncio alvo
os que não querem
lutar por restos.

04/09/03


PREPARAÇÃO PARA UM MESTRADO EM LETRAS COMO POSSIBILIDADE DE MUDANÇA DE CARREIRA (DO ESCRITÓRIO PRA SALA DE AULA)

Após um dia de labor,
procurei por duas horas
um texto sobre mímesis.

Achei um autor
que escrevia há dez anos
sobre o tema.

Li por dezenove minutos
o único livro encontrado na biblioteca quase fechando
e não entendi nem o que era mímesis.

(Ou achei a década perdida
ou sou o elo perdido...)

No caso,
corri
pro carro.

O automóvel
defronte
me mandava sorrir a fronte:
Jesus me amava.

Não sorri.

12/09/03


DA VARANDA DO APARTAMENTO NO RECREIO DOS BANDEIRANTES

Dois imbecis
tentam acertar
pedras no jacaré.

Por sorte
o rio
é suficientemente largo
e as duas mentes
maravilhosamente curtas.

Tiros n´água...
Tiros n´água...
Desistem.

Algo me diz
que o jacaré (impassível)
sorri ao sol.

4/10/03


FOLHAS

A Fernando Pessoa

Ventou
à noite.

Eu
vi
ventar.

Não bastasse isso, era noite.

E era tão forte
tão longo
tão bravo
que era meu.

Eu, espantalho espantado
ventava.

Eu ventava à noite
orgulhoso.

Eu ventava
a noite.

. . .

Ventei a noite
pra me provar grande
(do tamanho de minha insatisfação)
e a manhã trazia rastros de nuvens lá no alto.

10/10/03


ENCONTRO NÃO MARCADO: ESCRITÓRIO

Algo aqui não me deixa fazer
internamente não faço
e se quero ou não quero não sei
só sei que não faço
e passo a passo
me atraso.

(O próximo passo:
a vida que passou.)

15/10/03


POETRIZSCHE

Nietzsche era
antes de tudo
um nome difícil.

15/10/03


TEJE PRESO

Estudando pro mestrado nesta data
descobri surpreso
o significado da palavra ilação.

(Quando eu usar isso num poema
me prendam.)

17/10/03


EMPREGO INDUSTRIAL VOLTA A CRESCER DEPOIS DE 6 MESES, MAS A RENDA DOS TRABALHADORES CAI

What a
wonderful
world (trade center)

17/10/03


A TIRA

calei dos copos
com o agudo
de minha ira.

20/10/03


TO WORK IN THE OFFICE

É com esses grilhões
que minha poesia
se liberta.

20/10/03


FRIOZINHO SOCIAL

É mais fácil
conviver com o ar condicionado
que me condicionar ao convívio.

22/10/03


DO INCONFORMATISMO INCONFORMISTA INCONFIDENTAL

Nada me basta.

Busco a pasta que não há.

Para o interior!
do país
do eu
da pasta...

Não há pasta.

Procuro a fechadura
o cadeado
a tranca
pois quero abri-la
decifrar seus mistérios cristalinos
colarinhos brancos
forcas
e higienizar o céu!

Não há pasta.

22/10/03


RESMA

A Mario Quintana e Manoel de Barros

A hora segue
com seu brilho escorrendo
onde lentamente passa...

(A hora tem anteninhas de ponteiros e não fazer)

24/10/03


MIRROR

O pior
do monstro
é a nossa
semelhança.

26/10/03


VAGAROSAMENDOEIRA

Não quero nada além disso.

Eu, vento, fim de tarde, andorinhas
caneta e papel.

Não desejo mais dinheiro
nem semear o amanhã.

Não quero amar ou ser amado
não quero nem livro editado!

Quero ser meu amigo.
Nada além.

27/10/03


PACÍFICO

Procuro não procurar
algo para ser encontrado
pois a busca é meu estado
de repouso.

29/10/03


TEMPOS MODERNOS

Por exemplo:
percebo as editoras
selecionando poetas não-entendíveis
e reclamando que poesia não vende.
(Quem vai comprar o que não entende?)

Para clarear a mente
vou caminhar horas e horas
na esteira
e não sair do lugar.

1º/11/03


POEMA CERTO POEMA

Para Marise

Uma coisa boa neste fim de semana foi que aparei as unhas inclusive a dos pés e cortei a barba o relacionamento não pois nos abraçamos como se o calor do corpo do outro fosse necessário para a sobrevivência na realidade fria e carinhosamente falamos palavras como navalhas cortando o resto de futuro com sangue e dor e dor (um pouco de orgulho e raiva) e carinho no abraço gostoso que parecia eterno até o outro corte em que mastiguei minhas bochechas cheias de aftas e ela foi pra casa e não me importei se chegou ou morreu no caminho dormi tranqüilo como um anjo revoltado o domingo quase me deu gastrite e acordei quase tonto segunda-feira sem saber se ia ou vinha nem se a tinha ou não a tinha na verdade não acredito em fim nem em mim mas está tudo definitivamente quase acabado mesmo sem nenhum de nós dois acreditar ou saber o que quer talvez que vontade de ligar pra ela ou não quem sabe?

3/11/03


POEMA UM

Recomeçar.

Com o peso me pesando os pés e a pele.
Nem uma palavra disposta a pingar no papel.

Rachel de Queiroz morreu.
Amor acabou.
Verbo transitou.
Vento... E daí?
A chuva chora. Só a chuva.
E daí o vento, meu Deus...

Transborda o tempo: sobra.

É silêncio como nunca fora.
E acho constantemente
que podia ter feito, sido, estado, lutado
mais.

Mas...

4/11/03


DA DOENÇA

A gripe
é um tipo
de libertação.

Não tenho que estudar
porque estou gripado.

Não tenho que mostrar
como sou bom no trabalho
porque estou gripado.

Não tenho que lutar
pelo amor perdido
porque estou gripado.

Esse meu poema...
Bem, estou gripado...

6/11/03


FIM: MAL EXPLICADO

Decepção é quando se vê
silêncio
onde deveria haver
cumplicidade.

(Acendo uma fogueira de ódio
pro frio passar mais fácil.)

9/11/03


FIAT LUX

A Carlos Nejar e Marco Lucchesi

Se sou palavra
não serei a mariposa:
borboleta desfeita
em ausência.

Se a luz brota
atravessa
colore
transforma
via palavra...

A larva da sombra
contínua
com vaga
lembrança
do que foi
do que se foi
apaga.

Apaga agora!
Apaga que eu quero
brilhar.

Palavra é poder
e eu posso querer.

Sem raiva
ou reclame
há um mundo
a ser mudado
e sou soldado
na palavra.

17/11/03


ARMADURA DE OURO

Para Gislaine Mirella

Nunca sinta:
“Você é tudo
pra mim.”

(Se sentir
não diga...)

Ninguém gosta
de quem se contenta
com pouco.

24/11/03


(Fabio Rocha)

quarta-feira, 13 de novembro de 2002

e-book Caminho a manhã (2002) - revisado em 2014







Caminho a manhã

Fabio Rocha




Copyright © 2002 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: CAMINHO A MANHÃ
No. Registro da Obra: 273656
Livro: 492
Folha: 316
Data de Registro: 13/11/2002
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Caminho a manhã

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br






Prefácio


Fabio Rocha é na poesia contemporânea um fabuloso exemplo de como podemos encurtar o verso sem perder a poesia. Com seu incrível poder de síntese, vai sugando nos dias que correm as metáforas que passam desapercebidas aos olhos daqueles que não param para observar um pouco além do óbvio.
Entre a política e o amor, vai deixando o seu legado poético repleto de fortes mensagens, que mereciam ser repetidas ao microfone em alto e bom som. Por vezes romântico, por vezes panfletário. Seu Auto-Retrato como ele mesmo define é incapaz de decifrá-lo (Nas ruas / sou sério / calado / careca. / Na Internet, / sou poeta). É exatamente assim que conhecemos Fabio numa primeira conversa, para só depois descobrir que quando ele diz poeta não é mera brincadeira, tão comum no meio virtual. Autor de 4 e-books e um primeiro livro pela editora Papel & Virtual, a palavra poeta é como uma respiração ofegante que o acompanha no dia-a-dia. Por vezes sério como Drummond (O silêncio salta / faz piruetas e dança, invisível / pelo espaço intransponível / que separa eu de mim.), por vezes repleto de humor como um Veríssimo (Eu não vou falar de mulher. / Olha a seleção / e os problemas de ereção / do Pelé...).
Ler os seus poemas é mergulhar no universo da poesia e da música clássica para poder compreender a grandeza das imagens que cria em seus versos. É querer saber quem são estas tantas mulheres que atravessam sua vida fazendo-o negar as próprias metáforas (Estou farto / de usar as mesmas metáforas / pra falar das mesmas dores... / Quero dores novas!).
Assassino e inquieto, Fabio é incapaz de calar seu verso a qualquer simples aberração que reprove na televisão. E sua arma para cometer o crime é nada mais que um lápis, uma caneta, um teclado. O poeta revoltado joga na cara do povo sua medíocre condição humana (Domingo só tem babaca / fazendo programa / pra babaca assistir / na tv.). Deste modo segue Fabio Rocha, caminhando a manhã e criando asas nos seus leitores para que estes possam cada dia ir mais longe, assim como ele está indo com a sua poesia.

Rodolfo Muanis, Outubro de 2002










“O melhor caminho é o do meio.” - Príncipe Sidarta (Primeiro Buda)











HEGEMONIA – O LEGADO

Seguindo a cartilha neoliberal
global-estadunidense
chegamos na beira do caos
ou no quase fascismo...

O privado é público,
o público é privado
e o Estado é privada...

Eis a nada simples missão
de nossa geração:

Estatizar o Estado,
consumir o consumismo,
democratizar a democracia
e reviver a vida.

22/5/02


AUTO-RETRATO

Nas ruas
sou sério
calado
careca.

Na internet,
sou poeta.

29/5/02


LONGE, LONGE

Para Drummond

Ando, ando...

Bancos vazios
em corredores soturnos.

Prédios noturnos
me observam calados.

Rostos, vozes
tudo, tudo
longe, longe...

O silêncio salta
faz piruetas e dança, invisível
pelo espaço intransponível
que separa eu de mim.

Não ouço meus passos
mas não importa
pois nem eu nem cada porta
por que passo
compreende esse trajeto.

Seguro
com as estrelas
o peso dos véus,
do escuro
e da ausência
inadmissível
intocável
intransponível
inassimilável.

O vento venta
mas venta pouco.

Quem dera a paz...
Ventasse mais...
Ventasse mais!

E expulsasse
de minha mente enfumaçada
as centopéias indecifráveis
que me fazem não achar.

UERJ - 6/6/02


NÃO FALAR

Eu não vou falar de mulher.
Olha a seleção
e os problemas de ereção
do Pelé...

Eu não vou falar de mulher.
Quero saber da novela
e se o clone fica com ela...

Eu não vou falar de mulher.
Não quero isso
nem o Thyrso.

Eu não vou falar de mulher.
Vou ficar sozinho
assistindo o Ronaldinho
correndo, correndo...

Como corro de mim.

7/6/02


SOLUÇÃO

Quero endorfina na veia
ou conseguir amar
uma mulher feia.

7/6/02


QUASE

A loucura me chama.
Chama tão próxima
que quase queimo.

7/6/02


INSETO

Para A.

Já perdi as contas
dos sonetos que li
de Neruda.

E continuo
incerto
quanto ao amor e ao âmbar.

27/6/02


A MARCA DA AMARGA AMADA ALÉM

Minhamada além
é quem?

Além daqui...
lá, lá, lá no lar
de não sei quem
dorme possivelmente
(cansada de procurar)
minhamada além.

Poderia ser Madalena
mas e a rima do poema?

Minhamada além
é quem?

Ah, se eu soubesse amar...
Ah, se eu soubesse achar...

É acima
avante
adiante
além além além...

Na noite escura
é a estrela de grandeza dura
que não vem.

7/7/02


PAPEL

De todo o silêncio
ouço só o esplêndido
silêncio das árvores.

Pois o silêncio de quem fala
e cala
é incompleto.

Por isso, ouço o silêncio
distante
das árvores que nunca vi.

8/7/02


PÓS-FÁCIL

Para Elaine Pauvolid

Aliás,
ver você
poeta e musa
musa e poeta
de vermelho...

Aliás,
ler você
entregue ao trago
(cheio de um estilo estranhamente reconhecível)
perdida e achada,
pichando meus muros
nos domingos sozinhos,
afugentando a felicidade,
completa, repleta e secreta
com borboletas, letras e pássaros artesanais,
Deuses infernais
e querendo aprender a mentir...

Me fez sorrir
por todo o longo caminho
de volta, sozinho.

(Pois me vi
em ti.)

16/7/02


REPETECO

Estou farto
de usar as mesmas metáforas
pra falar das mesmas dores...

Quero dores novas!

17/7/02


CRISÁLIDA DE CARNE

Quase tonto
quase tento
sair.

Só não sei como
rasgar o que sou
sem ferir.

28/7/02


TROVÃO

Tudo comigo é difícil
porque tenho essa mania
de querer que o impossível
rime com poesia.

28/7/02


NOITE

A noite é escura
demais.

Preciso de espaçonaves alienígenas,
preciso de Platão, de Aristóteles, de Pitágoras, de Drummond...
preciso de um Deus
melhor.

13/8/02


CAIXÃO

A Roger Waters

Eu queria comprar
uma caixa grande
pra ter onde colocar
(em ordem alfabética)
as cartas de amor, as fotos, os presentes
e a dor
de minhas três
ex-namoradas.

Eu queria comprar
uma grande caixa
para morar
bem longe, sozinho, longe, sozinho e longe...

Eu queria comprar
um gigantesco cadeado
pra me fechar pra sempre
e não querer abrir.

15/8/02


TARDE DEMAIS

O som do céu é surdo.
O azul, absurdo.

Absorto,
observo a letra F farfalhar
o fim.

19/8/02


CAIXOTE

Perdido estou.
Perdido vou ficar.
(Com ou sem você.)

Não há tempo
(nem vontade)
pra me achar
na vida.

Mas o desencaixe
me encaixa
na arte.

21/8/02


TOCAR

O telefone não tocou.

Ligo a tv.

Domingo só tem babaca
fazendo programa
pra babaca.

Vejo um ser humano
tocando gaita com o nariz
consciente da babaquice mútua
no meio da tarde.

Mas mesmo assim
babacamente percebo também
o telefone mudo.

8/9/02


SOFRER

Preciso de
estrume
pro poema
florescer.

13/9/02


GEMINI

Ao Moska

Quem me separou
de mim?

Ergo e destruo pontes
erro aos montes
luto-me esgrima
me me afasto
do que nos aproxima.

Cortes múltiplos
mortes súbitas
fendas, muros e murros
sabedoria de burros...

Em dia nenhum
dois serão
um.

13/9/02


BAIXO

Destampem os ouvidos:
eu não vou gritar meus poemas.
Não quero crescer assim minhas certezas.
(Elas são pequenas e tímidas como eu.)

Nem farei piruetas,
ou virarei cambalhotas
para compensar as alegorias poucas dos versos
e as alegrias poucas da vida.

Minha poesia tem vergonha
de acordar o sonho do silêncio.

17/9/02


POETETRIX

Meu cabelo cresce,
minhas unhas crescem,
minha barba, insistentemente, cresce
e eu não cresço.

23/10/02


TAMBÉM JOSÉ

A Drummond

Vivemos no concreto
sem comer nada natural
sem beber nada natural
sem ser natural
e querendo preservar a natureza.




(Fabio Rocha)

sexta-feira, 7 de junho de 2002

e-book Vice-Rei (2002) - revisado em 2014









Vice-Rei



Fabio Rocha



Copyright © 2002 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: VICE-REI
No. Registro da Obra: 260441
Livro: 466
Folha: 101
Data de Registro: 7/6/2002
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não


Título original: Vice-Rei

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br














Para o amigo e poeta Ricardo Alfaya, que acha tanto no que escrevo tão pouco.






























Por baixo da saia

À primeira vez que tive contato com a poesia de Fabio Rocha, percebi o talento incontestável do autor. Isso se deu a partir do site www.falaê.com.br . Ambos éramos colaboradores. A partir das pistas naquela revista eletrônica - para mim, uma das melhores em termos de diagramação - que visitei a página pessoal do autor www.amagiadapoesia.cjb.net, o que foi uma grande descoberta.

Muitos há no Brasil talentosos e Fabio é um deles. A internet é a saída para todos nós que trabalhamos com arte pois, até agora, com pouco dinheiro nos fazemos circular em tempo inimaginável até o início da década de 70 e em termos de Brasil, até o final dos anos 80, com complacência e até ontem com realismo.

Fabio tem sensibilidade e talento para fazer uso desta ferramenta, se não acessível a toda população, pelo menos à classe média. O site, A Magia da Poesia, muito bem diagramado, diria até que revelando um outro talento do autor, o das artes plásticas, ou quem sabe, desta tão falada poesia visual, chama atenção primeiro por isto: pelo show visual que nos dá em economia de formas e precisão estética. Ao longo do tempo, conheci seus poemas nus. Sem a roupagem rica das cores e da animação cibernética. Estavam lá versos verdadeiros, versos por inteiro. Sem dúvida, sua poesia perde muito sem suas vestes plásticas. No entanto, percebe-se o ente nu, totalmente desfolhado, mas não esfolado. Com o livro que temos aqui se comprova isso. São poemas curtos, à moda atual, tão vilipendiada por críticos nostálgicos de um tempo em que a genialidade parecia ser o comum e o normal nunca existido.

Principalmente entre jovens, a poesia tem sido curta. Que queriam os mais velhos? Como debruçar-se sobre epopéias e enormes sonetos com a rapidez em que estamos imersos, na qual nascemos? Seria forçar a mão em busca de um sonho perdido. Mas, que sonho? Quem poderá dizer a época mais profícua para versos? E não houve Safo e muitos outros que em poucas linhas diziam quase tudo? Sem dúvida, muito se perde por julgar um poema pela quantidade de versos, presença de rimas, ou imaginárias missões maiores.

Certo é que muitos preguiçosos e orgulhosos de sua ousadia rabiscam palavras de ordem ou de segredos sem notar que o poema curto não é uma regra, não se esgota e nem é uma grande descoberta ou invenção pós-moderna.

Se curto porque deva ser curto, que seja, e se está curto porque não está pronto ou nunca estará que se estude e se trabalhe no balbucio primeiro. Esses, que também são muitos, fazem deste estilo, seu estilo, sem notar que ficaram presos no próprio reflexo à maneira de Narciso e nem sabem em que estão afogados.

Em Fabio, percebe-se que há um trabalho em constante evolução e seus poemas se fecham no círculo necessário a qualquer projeto. Ele sabe terminar um poema. Eles acabam em si. Eis o ponto crucial de Fabio, o que o singulariza. Realmente temos poemas muito curtos. Curtos o suficiente para nos surpreendermos. Vejamos o poema “Casa”:

Quero estar em casa
longe dos olhos alheios,
minhas sombras sempre estranhas
e esses malditos espelhos.

Que se pode acrescentar a este poema? Que dizer dele além de: sim, é verdade eu sinto isso. Mas, atenção ao sentido de leve escamoteado pela ausência da preposição “de” nos dois últimos versos: longe dos olhos alheios, minhas sombras... Com a atenção que peço ao leitor, vejo o seguinte: Quero estar em casa/ longe dos olhos alheios, de minhas sombras sempre estranhas e desses malditos espelhos. A preposição pode ser suprimida se presente no início. E se o poeta não a sumprimisse o poema perderia seu valor se não totalmente, em grande parte. No entanto, também se poderia entender os versos últimos como aposto em que olhos alheios seriam as sombras estranhas e malditos espelhos onde o pronome esses reforçasse ainda mais a ira do autor. Sim, esta é uma segunda leitura do poema. Na primeira, uma referência ao resto da população que rodeia o poeta, o mundo e seus obstáculos enormes, a casa como refúgio tranqüilo onde ele pode ser essência e não reflexo, sem espelho, com olho de alma invisível e sensível. No segundo a referência ao grande Outro, na consciência de que o inferno não são os outros, é o Outro disfarçado de outros, como não diria Sartre, porque Lacan ainda não teria difundido sua idéia de Grande Outro.

Percebe-se de pronto a personalidade do poeta, uma personalidade tímida e bem humorada como costumamos ser, brasileiros. Manuel Bandeira mesmo triste e choroso é cômico, ou não? Que dizer da relação que teve com Elizabeth Bishop quando esta foi presenteada com uma casa em Petrópolis ao lado de uma mulher como Lota. Bishop o achava típico, como os demais brasileiros, como se vê em suas cartas. Mas, quem está de fora, vê que também ela era típica, falava de versos puros e se torturava por serem tão difíceis. Bandeira deitava na rede, tranqüilo e seus versos falavam das coisas simples do coração. Bishop queria falar dos barcos, do porto de Santos, do encardido que não estava nela, ou se estava, não achava que deveria ser a poesia meio para mudar seu espírito. Bandeira, se falava do coração, de seus sofrimentos de raquítico, não era para purgar-se disso, mas para desabafar, para apaziguar-se e com os versos fazia comunhão com a sabedoria da serenidade do miserável, tirando místico prazer da dor. Bandeira era um poeta brasileiro de versos quase sempre engraçados, apesar de falar de coisas quase sempre tristes e Bishop uma missivista de língua saxônica, cômica, altamente cômica, em cujos poemas se vê um olhar estupefato, e mesmo que não quisesse, com o lampejo das almas sábias, que em tudo vêem um risco de graça.

Há humor nos versos de Fabio Rocha, mas é um humor sem intenção, um humor inerente à condição dos frágeis. Ele se mostra frágil em seus poemas, cônscio disso nos versos, sem auto-piedade, apenas mais um dos aspectos de sua poesia e essa fragilidade exposta é que dá a primeira impressão de uma comicidade e de se tratar de um poeta menos profundo. O que é engano enorme. Na releitura de Fabio é que percebemos que o humor, a graça primeira, era apenas um véu sobre o trágico da condição humana, das inúmeras limitações e fascinações a que somos expostos. Vejamos “pressa de amar”:

Sou aquele
que chama
pra dançar
e nota
que não tem
pernas.

Fabio Rocha é um poeta que levanta a saia. Mas, é preciso que o leitor não tenha pressa em o tragar, nem de o julgar. Ele levanta a ponta da saia. O leitor desnuda o vice-rei cômico, para descobrir uma verve autêntica de poeta que não veio para fazer rir, nem para fazer chorar, mas para fazer arte.

Elaine Pauvolid























SEM TIDO

Lá fora a lua brilha,
o vento uiva
e pessoas buscam.

Ah, eu quero entender o mundo...

Ou apenas
fazer um poema profundo.

28/12/01


FILOSÓFICO-RELIGIOSO

Por temer a morte,
o homem criou a religião
no oitavo dia.

No nono,
com dor de solidão
nas costelas magras,
o homem - esse portento
inventou o casamento.

29/12/01


MODAL

Minha irmã diz
que escrevo sempre
o mesmo.

Falta pano
nas metáforas
com que visto
o real.

30/12/01


LUGAR DIFÍCIL

Por falta do que fazer,
ando.

E o silêncio do caminho
me empurra
para dentro de mim,

onde sombras de amigos
suspeitos
espreitam

e vontades de amores possíveis
vão crescendo e corroendo
estradas sem direção.

30/12/01


CASA

Quero estar em casa
longe dos olhos alheios,
minhas sombras sempre estranhas
e esses malditos espelhos.

1o./1/02


ÚLTIMA PRAIA

Foi no mar
pensando em amar
que Iemanjá cutucou-me a canela
com um relógio.

(E funcionava!)

Seus ponteiros bussolavam:
não se acha o amor,
o amor é que te acha.

4/1/02


QUEM É VOCÊ?

O amanhã nunca vem...

E eu também
não vou além
de mim, refém
do eterno quem.

6/1/02


CENTRO

É desse chão cinza
regado de stress
que nascem as estranhas
plantas bípedes concorrentes.

Seus frutos são negros
quadrados
tem alças retangulares
e quase nunca caem.

Plantas que se movem
sempre
com ou sem vento
com ou sem chuva
com ou sem vontade
com ou sem vida.

7/1/02


QUANDO CRESCER

Senhor, eu quero ser mendigo,
esquecer o trigo
e comer o pão.

Eu quero não saber do dólar,
só viver de esmola
e ser ermitão.

Ignorar o mundo e as letras
e fazer caretas
para o camburão.

Sonhar sonhos de ignorância
e só ter a ânsia
de viver em vão.

Comer antifrutas sem sumo
e andar sem rumo
pela escuridão.

8/1/02


LADO B

Revolução!

Tá, e agora?

Como
virar
a mesa
sem quinas
sem pés
sem vidro
sem ferro
sem esquerda
sem direita
sem mesa?

9/1/02


OLHO

Quanto mais
estudo os Grandes,
mais encolho.

11/1/02


PROLIXO

Não é por vivermos em edifícios
que devemos escrever difícil.
Pro leitor, não pro lixo.

18/1/02


VERÃO NO SUBÚRBIO

Como se não bastassem
a acidez do sol
e o bafo do asfalto

ainda tocam
fogo
nos fundos
dos quintais...

e essa música branca
sobe
e arde
a tarde
no pulmão da cidade.

22/1/02


VÊNUS

Nesse mundo cheio de chão,
pleno de terra,
busco
o prazer das coisas
comuns.

Mas só encontro
vontades
de asas
e
deltas
de Vênus.

22/1/02


SE MEU GOLEM FALASSE...

Para Fellipe Cosme

Estou chorando vendo João Kleber,
imaginando pátrias sem hinos,
colecionando crepúsculos de ouro
e me regozijando com sorrisos femininos
vindouros.

(de amadas distantes desconhecidas desmanteladas - amadas que não vêm)

Bailo bailes com minha mão
e nem ouvindo o trovão
meu desejo cala.

Sim, tenho e sou mala
mas não viajo.

Ralho
e quase não saio.

Passa, tempo!

Me vicio em novos videogames e RPGs
e me encontro anão
em pontos de ermitão.

Tempo voa.

Bebo Coca-Cola,
arroto antiglobalização.

Sobra tempo.

Leio Nietzsche,
pergunto Jesus.

Tempo pinga.

Minha pele
expele
pus.

5/2/02


SONETO À SOLIDÃO

Com amor eu tudo faço
pela minha companheira.
E se vejo a lua inteira
Não me basta um pedaço.

E me jogo no espaço
De uma espreguiçadeira
Tendo a alma seresteira
Encharcada de compasso.

Essa música de aço
Que eu faço de bobeira
É pra minha companheira...

E essa cara de palhaço
E esses versos de terceira
São pra minha companheira.

6/2/02


EXTINTAS ESTRELAS – EXTINTAS

A Fellipe Cosme

Raros amantes,
amantes pequenos
com relógios imensos,
caros
relógios intensos.

Procriam no cinza
cada vez mais alto e alto e alto...
mais longe do céu.

Abraçados pelo turbilhão
da população crescente
e anônima
com relógios de nome.

Tropeça a noite
sobre tudo e todos,
mas só alguns
semeiam em folhas
alvas
o cheiro de extintas estrelas
de épocas menos poluídas.

E inventam melancolias
de quando havia casas vazias,
toques de mão,
amigos irmãos,
terra
e tempo.

10/2/02


CELESTE

Para Andréa

O meu anjo negro
eu não possuo.

Suo
tentando achar
escuridão em anjos outros.

E acabo por concluir
que não existem anjos.

19/2/02


A ESTRELA

Na plantação vazia
a vastidão arrepia.
Então eu cultivo
a estrela mais impossível.

22/2/02


A SABEDORIA DAS AMENDOEIRAS

A Manoel de Barros

Quero
não
querer.

25/2/02


DIA DE SOL

O vento me soprou
um céu azul cereja
e vi na borboleta
mais Deus
que na igreja.

26/2/02


MUNDO

Pego todos os caminhos
que me levam a nada
pois tudo é imundo.

5/3/02


DA AGRESSIVIDADE DA BELEZA

Há belezas
que ofendem
as fendas
dos olhos.

No seu equilíbrio
de curvas e cores
parimos faltas.

5/3/02


PÊNDULO

Caminho no campo florido
ouvindo gritos de revolta.

Na palma das mãos,
louvor e sangue.

O sol que brilha
esfria minha alma.

Tropeço em preces
mas a pressa empurra.

Vago e divago
entre
dentro e fora.

(Me falta uma espada
pra cortar espelhos.)

Onde começo eu
acaba o mundo.

14/3/02


ESPADA

Eu sou o imbecil
com uma bandeira
branca no meio da guerra

que costuma levar
espadas
em passeatas
pela paz.

Se me deixam,
choro em nascimentos
e rio em funerais.

Meu rio
não quer
a_mar.

E
vence
a gravidade.

15/3/02


VICE-REI

Eu sempre estendi as mãos
para as borboletas...

Abria os braços
para o passado saudoso...
para o futuro sonhado...
mas nunca tocaram em mim.

Hoje, fiquei imóvel
e uma pousou no meu pé.

19/3/02


MIL E UMA NOITES

Minha boca
já se encheu
de línguas...

Meu esqueleto
escaleno
já se esforçou tanto
em camas e lustres...

Mas minhas mãos
mendigam ainda
em peitos
em busca
dum coração.

30/3/02


DELIVERY

Somos nazistas alienados
contribuindo semicegos
para os campos de concentração
de renda.

Criamos necessidades de consumo
inúteis
matando chances e gentes
ainda mais cegas.

Quem tem olhos,
tem bolsos
cheios
e milhões
de vendas.

5/4/02


POESIA SOCIAL

Sou Sísifo,
mas fraco.

A pedra
não move.

Espero
mais mãos.

14/4/02


METAFÍSICO

Eu sou o último tombo
o filho único da espada
o fim do eterno retorno
a vida e a morte, mais nada.

16/4/02


A LÍNGUA DA PAIXÃO

Para Anne Caroline

Soltem meus braços!

Deixem-me berrar
aos sete ventos
que a vida é boa...

que há línguas
como a tua...

e que amar
não rima à toa.

21/4/02


PRESSA DE AMAR

Sou aquele
que chama
pra dançar
e nota
que não tem
pernas.

27/4/02


BARBA

Eu queria ser feliz
e falar de futebol
mas me interessam
idiossincrasias e cnidoblastos com nematocistos.

Não presto.

27/4/02


SUPER EGO

Um bom motivo
para a tristeza latente
em minha felicidade descrente
talvez seja esse relógio duro
a segurar meu punho
e a ameaça duradoura
das gravatas borboletas atrasadas vindouras
ao pescoço ainda livre.

Quem sabe não é por isso
que os músculos de meu rosto
em protesto
doem
quando rio
sem querer
em festas
de família.

3/5/02


A OSCAR WILDE

Sim, talvez eu devesse
assistir a essa maravilhosa
aula (cópia de livro em giz)
e assim perder
a peça de Oscar Wilde
de graça no anfiteatro B.

Só que...

UERJ - 7/5/02


PORQUE AS ANDORINHAS DE CHUMBO NÃO VOAM

Não crêem.

7/5/02


MATA

A Oscar Wilde

O homem
mata
o que ama
porque ama
o que acaba.

7/5/02


PSI

Se grito
ou falo baixo
não me acho:
procuro demais.

7/5/02


DO FIM

Para Anne Caroline

Suas lágrimas seguraram a minha raiva.
Meu orgulho segurou a minha lágrima.
Minha mão segurou a sua, pela última vez.

Fui tentar me sentir seguro no carro,
e liguei o rádio...

Pensei: “Tudo menos aquela música agora...”
E foi justamente a que tocou.

Aumentei o rádio e olhei o carro adiante
com o símbolo do Batman
simbolizando pra mim: siga em frente.

Não segurei a risada...

Pois nessas horas é que acho Deus
e acho Deus engraçado.


(Fabio Rocha)