quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

e-book Liberdade (2003) - revisado em 2014








Liberdade


Fabio Rocha




Copyright © 2003 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FABIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: LIBERDADE
No. Registro da Obra: 307027
Livro: 559
Folha: 187
Data de Registro: 11/12/2003
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Liberdade




Editoração eletrônica: Fabio Rocha









Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br






Dedicatória

Para Fellipe Cosme, Ricardo Alfaya e Rodolfo Muanis, os poetas vivos com quem mais convivo e aprendo, mesmo que virtualmente...
Cada linha neste livro leva um pouco de vocês.

















Prefácio
por Ricardo Alfaya*

Caro Fabio,

Acabei de ler seu novo livro, penso que está muito bom. Ao contrário de outras vezes, você partiu de um título aparentemente direto, sem ambigüidade: LIBERDADE. Entretanto, conforme vamos lendo a obra percebemos que a ambigüidade persiste no sentido paradoxal das atitudes e crenças do "eu-lírico", que ora parece crer de fato numa forma de libertação possível, ora desfalece, reconhecendo a impossibilidade de qualquer utopia libertária, até mesmo individual, nesses tempos descrentes e sob o sistema opressivo implementado pelas transnacionais.

Há um aspecto muito original na poesia que você está fazendo, e que ainda não vi em ninguém mais: consiste nesse caráter autobiográfico, quase seqüencial de seus escritos. De certo modo, sua poesia tem algo de romance. Lá estão seu emprego, Marise, seu pai, eu, Tanussi, suas leituras, sua psicanálise. Há um certo toque de Proust nisso, só que você não corre atrás de um tempo perdido no passado, você suspeita da possibilidade do "Carpe Diem", do aproveite agora, do viva agora. Há uma certa noção de que o tempo perdido É AGORA! São tantas as barreiras, os sufocos, os empecilhos para o exercício da "liberdade" (condição inerente ao "ser" humano, segundo Sartre) que não sobra lugar nem para o desespero, ou melhor, até ele se transforma em perplexidade.

E aí entra a questão: fazemos poemas ou poesia? Isto é, existe um certo critério, um certo mandamento de fazer poesia que se torna difícil de atender, posto que a realidade que vivemos é tão sem poesia (num certo sentido, naturalmente), que não há de onde extraí-la. A questão, assim, do de onde "inventar" a poesia se torna recorrente na obra. São questionamentos constantes, persistentes.

Acho que por alguns de seus poemas dá para perceber, suspeitar, talvez de uma certa dúvida sobre quanto a validade poética do que você faz. Na verdade, o problema não está em você. Quando digo que gosto de sua poesia, eu o faço de coração e sei que tenho argumento. Entretanto, nem eu, nem ninguém, detém no momento o poder do critério definidor do que hoje seja boa poesia ou não. Essa é a luta monstruosa e dilacerante que se trava no cenário. É imprudente e inconveniente citar nomes, mas é claro que se A, B e C fazem e defendem um tipo de poesia que não se parece nem de longe com o que você faz, então começa a surgir aquele mal-estar, de que de repente apenas um dos dois está com a poesia, o outro não. Na verdade são premissas falsas, pois a convivência pacífica de gêneros diversificados é perfeitamente possível. Ou melhor, seria, uma vez que a História mostra que os que ficam são sempre poucos. Em geral, os melhores. E quem são os melhores? Ora, a resposta vai depender da boca de quem a disser. Em termos de poesia, vivemos num tempo em que se digladiam opiniões não apenas de pequenos grupos, mas também de poetas individualmente considerados.

Há muito cheguei à conclusão de que o poeta brasileiro contemporâneo não deve contar com qualquer unanimidade. Haverá o grupo dos que dele gostarão. Haverá aqueles que, por variados motivos, nunca lhe darão qualquer oportunidade. As exceções, se existirem, serão pouquíssimas. Porém, nem isso é garantia, pois, embora não chegue a dizer, como Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra, devemos admitir que pelo menos suspeita ela é. Por certo muitos não ousam questionar publicamente qualquer personalidade muito cortejada, menos por a amarem do que por temor às conseqüências do imprudente gesto. É uma cartada muito alta, que pode até consagrar quem a faça, mas que também pode expor o indivíduo ao ridículo e à execração pública, de maneira irreversível, como é o caso do cidadão que recentemente ousou afirmar na Internet que Drummond não era poeta por nunca ter escrito um poema dentro dos rigores da métrica e da rima.

Um outro aspecto ainda que notei em sua poesia, mais do que das outras vezes, é uma consciência maior sobre a natureza de seu trabalho. Quando você questiona, por exemplo o valor da poesia hermética e obscurantista. Sim, sua poesia é mais voltada para a revelação do que para a obscuridade. Cada volume de suas obras contribui para um melhor entendimento do tempo em que vivemos.

Desenvolvi minha própria poesia muito calcada nesse aspecto, do qual nunca dissociei o conhecimento interior, em razão de minha concepção gestaltiana, holística, integrada do eu e do universo. A velha questão: como dissociar rigorosamente o sujeito do objeto, quando nosso próprio corpo, elemento integrante do sujeito, é, no fundo, um objeto como tantos outros? E como tratar como coisa certos objetos com os quais desenvolvemos ligações afetivas "in extremis", como os poemas que fazemos, por exemplo. Sujeitos ou objetos?

Então, é a poesia de que gosto. Respeito, tento ouvir as motivações de certos autores que se entregam a erudições, hermetismos e preciosismos. Não são inteiramente desprovidos de razão, posso entendê-los. São frutos de nosso tempo de contradição e perplexidade, de ausência de rumo, da distância cada vez maior entre o homem comum das ruas, mesmo o alfabetizado, e o autor de poesia escrita. De que adianta ser compreensível, se quem nos vai ler é uma elite exigente e competitiva, que vai desprezar o que não lhe pareça sofisticado, requintado? E o poeta, sabendo que escreve para um poeta, tornará seu texto cada vez mais fora do alcance do homem das ruas.

Então, todas essas são questões muito interessantes que você traz para sua obra, uma poesia que, no meu entender, tem condições de agradar tanto ao poeta de mente livre, sem preconceitos estéticos, quanto ao público sensível, observador e letrado em geral.

*Ricardo Alfaya é poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.

Endereço de seu blog Nozarte:

http://nozartecultural.blog.aol.com.br/







PRECIOSIDADE

Valéria tem olhos de medo
como o dos pássaros
pequenos e frágeis.

Há agitação
sob as camadas
de sua plenitude
alva.

Cabelos e plumas se confundem
no lume
que vejo
e que imagino...

Valéria
fala pouco
mas olha muito.

Pra mim, basta.

E sigo, besta
a escrever muito
e falar pouco.

Ah, se nossos silêncios
se tocassem...

5/11/02


DESMOTIVO

Tenho que dar o baço a torcer...

Minhas sinceras congratulações
às psicólogas (sempre a sorrir)
dos processos de seleção
para estágios e trainees.

Eu e meu currículo cheio de página,
línguas, informática, capacitação...
e silêncio.

Talvez seja o silêncio o problema...

Mas também não sou bom ator, não...
E acabo sempre minha participação
na dinâmica de grupo.

Eu, meu silêncio e meu antidinamismo.

Querem pessoas inteligentes, com visão sistêmica e críticas (quem diria?!).
Mas pessoas inteligentes, com visão sistêmica e críticas não quereriam
trabalhar nessa porcaria
e ouvir sermões sobre motivação
para encher mais ainda o bolso mais que cheio do patrão.

Esses contribuintes próativos automotivados
perceberiam a desigualdade imutável
com um pingo de consciência
não quereriam matar indiretamente
crianças africanas de fome,
iraquianas de raiva,
brasileiras de sede...

Não quereriam. Não quereriam...

- Que estou fazendo aqui?

12/11/02


OBRA

Há quatro anos
que,
grudado no meu quarto,
o vizinho
tenta construir uma casa.

Bate, bate
raspa, raspa
berra, berra
quebra, quebra
chapa, chapa
xinga, xinga

Até agora,
só derrubou uns sonhos
e alicerçou uns poemas.

15/11/02


PUSH

Tanques
estadunidenses
atropelam
Coreanas
adolescentes.

Se dirigir
(um país)
não beba.

25/11/02


RE-TRATOS

Apreciando fotos antigas
notei que em algum ponto de minha vida
meus sorrisos se tornaram falsos.

Tratei do tema
fazendo um poema
com poucos pontos finais.

E agora, de fora das catedrais do tempo
sorrio rimas
tentando encontrar nas ruínas
o que perdi.

3/12/02


CONVOCAÇÃO

Venham a mim os loucos
os roucos, os poucos
os perdidos, vencidos e poetas!

Juntem-se a mim
rasgando gravatas
e quebrando televisores!

21/12/02


A_CORDA

Do amor
conheço dor
e ira.

O resto
é coisa de filme
conto de fadas
ou a rara
aparição quase instantânea
(imaginária?)
de um possível
nariz de gnomo
no jardim morto.

29/12/02


MISSÃO

A garça lê
o rio
paciente.

31/12/02


LIQUIDE A DOR QUE FICA

Para Marise

O que aqui gira
é Marisa Monte
biquíni colorido
mentira
lâmina de barbear
asa de anjo
nada
mar
Marise
e uma pitada de faltar.

04/01/03


LÍQUIDA, FICA A DOR

Para Marise

Após adicionares água,
sem mágoa, me pergunto, preocupado,
se misturar beijos e similaridades
pode dar amor como resultado.

07/01/03


ENSAIO SOBRE O ÍNTIMO

A Fellipe Cosme

I.
Abri o livro
e o metralhar de pensagens
me abriu
olhos, janelas e miragens
que nem me sabia haver.

Dentro ficou maior
e
li
a
luz.

II.
Eu quis asas.
Doeu
mas saíram.

Quis voar.
Deu um trabalho danado
mas voei.

Percebi
então
a gaiola
ao redor.

T-R-A-N-C-A-D-A.

Me revoltei
até descobrir
que eu era a porta.

17/01/03, após ler o livro “Vozes Mudas” de Fellipe Cosme


ODONTOSAGA

Minha independência
depende
da extração de ideais.

06/02/03


CONFISSIONÁRIO ATRÁS DO ARNALHO

Tenho lido tantas críticas e análises
profundas literárias
que não entendo mais
o que escrevo.

10/03/03


PROFISSÃO PRIMEIRA

Invisível
na carteira:
profissão - poeta.

12/03/03


SUBÚRBIO

Para os (outros) moradores de Maria da Graça

As pessoas na rua
aplaudem
as casas sem campainha.

05/04/03


NOVA VISÃO DO AMOR

Os amantes se fodem.
O amor não.

Quero a decência
de um amor em decadência
morno quase morto.

O amor tranqüilo
é a paisagem
não vista:
a conformação
do não chegar
ao horizonte.

Paz sem abismo.

17/04/03


JESUS

Há estátuas demais
de assassinos sobre cavalos
políticos corruptos
e heróis de guerra.

Há demais...

Há crianças demais
brincando de ter
de controlar
ou de vencer.

Há demais...

Salvem as exceções,
nossa salvação:
o de menos.

04/05/03


DO SONHAR

Para tia Mayra

Esta noite
sonhei:
estou despertando.

6/6/03


OU MORTE

Na busca
da aprovação alheia
me perdi de mim.

E agora
quase ciente disto
prefiro ao dólar, o capim.

09/07/03


CASAMENTO DE IRMÃ

Para Roberta

Na tarde seguinte
era domingo
e os passos leves
na casa vazia
murmuravam ausência.

Na mesa
três pratos
onde sempre houve
quatro.

20/07/03


LE

quero ser Leminski
como Leminski quis
mas o que faz do Leminski
o Leminski que não fiz?

31/07/03


LIMA

Estou
no limite
de me limitarem.

31/07/03


CARO

Perdi os óculos escuros
e ficou claro
que sou aéreo.

31/07/03


A ÁRVORE E O BARCO

E assim sigo balançando
no barco encolhido
vagarando no mar salgado
sem estrelas acima.

Meus sonhos, convicções e vontades
vão e vem
com as ondas
transmutando-se
em espumas
estranhamente diferentes
chocando-se sem cessar.

Com o vento vejo,
uma multidão imensa
de árvores intensas
e terrestres, firmemente terrestres
me acena.

Às vezes
dá vontade
de não ir...

06/08/03


VONTADE

O caminho se estica adiante
negro com linhas amarelas.

No peito
o fogo do juízo final.

Esse motor interno
(de combustão interna)
externa o corpo
adiante.

26/08/03


METAFORIA

Ler é chão
onde se anda
escrevendo.

26/08/03


LOGÍSTICA

Para o professor Ricardo Motta

Caminhão
é um grande caminho
poluído.

26/08/03


CARAMUJO

Quando falo
da casa
não é a casa
lar
lá.

A casa mora em mim.

26/08/03


SEM FORÇAS PARA UM TÍTULO

Era sexta-feira
e o desânimo batia frio
na vidraça.

As árvores balançavam sem sentido
e o tempo perdido
uivava atrás da casa.

Se ao menos uma certeza...
Se ao menos uma conquista...
Se ao menos uma palavra...

(Era bom quando eu chorava)

29/08/03


APONTA

Na ponta do lápis
me vejo
melhor que em espelho.

31/08/03


PATERNIDADE

Há um rio de esgoto
na cidade aberta
cercado de trânsito
por todos os lados.

Urubus negros
se enfrentam
se afrontam
por detritos
em meio à lama negra.

Não quero ser
mas sou
um deles.

A garça branca
contrasta sozinha
com olhos de silêncio...

Ali, no meio,
uma estátua...
uma morta...
silenciosa e incrivelmente branca.

E por mais que eu voe
por mais que me afaste em minha negridão
sempre há uma garça branca
na beira do rio
olhando
lá do alto
de seu silêncio alvo
os que não querem
lutar por restos.

04/09/03


PREPARAÇÃO PARA UM MESTRADO EM LETRAS COMO POSSIBILIDADE DE MUDANÇA DE CARREIRA (DO ESCRITÓRIO PRA SALA DE AULA)

Após um dia de labor,
procurei por duas horas
um texto sobre mímesis.

Achei um autor
que escrevia há dez anos
sobre o tema.

Li por dezenove minutos
o único livro encontrado na biblioteca quase fechando
e não entendi nem o que era mímesis.

(Ou achei a década perdida
ou sou o elo perdido...)

No caso,
corri
pro carro.

O automóvel
defronte
me mandava sorrir a fronte:
Jesus me amava.

Não sorri.

12/09/03


DA VARANDA DO APARTAMENTO NO RECREIO DOS BANDEIRANTES

Dois imbecis
tentam acertar
pedras no jacaré.

Por sorte
o rio
é suficientemente largo
e as duas mentes
maravilhosamente curtas.

Tiros n´água...
Tiros n´água...
Desistem.

Algo me diz
que o jacaré (impassível)
sorri ao sol.

4/10/03


FOLHAS

A Fernando Pessoa

Ventou
à noite.

Eu
vi
ventar.

Não bastasse isso, era noite.

E era tão forte
tão longo
tão bravo
que era meu.

Eu, espantalho espantado
ventava.

Eu ventava à noite
orgulhoso.

Eu ventava
a noite.

. . .

Ventei a noite
pra me provar grande
(do tamanho de minha insatisfação)
e a manhã trazia rastros de nuvens lá no alto.

10/10/03


ENCONTRO NÃO MARCADO: ESCRITÓRIO

Algo aqui não me deixa fazer
internamente não faço
e se quero ou não quero não sei
só sei que não faço
e passo a passo
me atraso.

(O próximo passo:
a vida que passou.)

15/10/03


POETRIZSCHE

Nietzsche era
antes de tudo
um nome difícil.

15/10/03


TEJE PRESO

Estudando pro mestrado nesta data
descobri surpreso
o significado da palavra ilação.

(Quando eu usar isso num poema
me prendam.)

17/10/03


EMPREGO INDUSTRIAL VOLTA A CRESCER DEPOIS DE 6 MESES, MAS A RENDA DOS TRABALHADORES CAI

What a
wonderful
world (trade center)

17/10/03


A TIRA

calei dos copos
com o agudo
de minha ira.

20/10/03


TO WORK IN THE OFFICE

É com esses grilhões
que minha poesia
se liberta.

20/10/03


FRIOZINHO SOCIAL

É mais fácil
conviver com o ar condicionado
que me condicionar ao convívio.

22/10/03


DO INCONFORMATISMO INCONFORMISTA INCONFIDENTAL

Nada me basta.

Busco a pasta que não há.

Para o interior!
do país
do eu
da pasta...

Não há pasta.

Procuro a fechadura
o cadeado
a tranca
pois quero abri-la
decifrar seus mistérios cristalinos
colarinhos brancos
forcas
e higienizar o céu!

Não há pasta.

22/10/03


RESMA

A Mario Quintana e Manoel de Barros

A hora segue
com seu brilho escorrendo
onde lentamente passa...

(A hora tem anteninhas de ponteiros e não fazer)

24/10/03


MIRROR

O pior
do monstro
é a nossa
semelhança.

26/10/03


VAGAROSAMENDOEIRA

Não quero nada além disso.

Eu, vento, fim de tarde, andorinhas
caneta e papel.

Não desejo mais dinheiro
nem semear o amanhã.

Não quero amar ou ser amado
não quero nem livro editado!

Quero ser meu amigo.
Nada além.

27/10/03


PACÍFICO

Procuro não procurar
algo para ser encontrado
pois a busca é meu estado
de repouso.

29/10/03


TEMPOS MODERNOS

Por exemplo:
percebo as editoras
selecionando poetas não-entendíveis
e reclamando que poesia não vende.
(Quem vai comprar o que não entende?)

Para clarear a mente
vou caminhar horas e horas
na esteira
e não sair do lugar.

1º/11/03


POEMA CERTO POEMA

Para Marise

Uma coisa boa neste fim de semana foi que aparei as unhas inclusive a dos pés e cortei a barba o relacionamento não pois nos abraçamos como se o calor do corpo do outro fosse necessário para a sobrevivência na realidade fria e carinhosamente falamos palavras como navalhas cortando o resto de futuro com sangue e dor e dor (um pouco de orgulho e raiva) e carinho no abraço gostoso que parecia eterno até o outro corte em que mastiguei minhas bochechas cheias de aftas e ela foi pra casa e não me importei se chegou ou morreu no caminho dormi tranqüilo como um anjo revoltado o domingo quase me deu gastrite e acordei quase tonto segunda-feira sem saber se ia ou vinha nem se a tinha ou não a tinha na verdade não acredito em fim nem em mim mas está tudo definitivamente quase acabado mesmo sem nenhum de nós dois acreditar ou saber o que quer talvez que vontade de ligar pra ela ou não quem sabe?

3/11/03


POEMA UM

Recomeçar.

Com o peso me pesando os pés e a pele.
Nem uma palavra disposta a pingar no papel.

Rachel de Queiroz morreu.
Amor acabou.
Verbo transitou.
Vento... E daí?
A chuva chora. Só a chuva.
E daí o vento, meu Deus...

Transborda o tempo: sobra.

É silêncio como nunca fora.
E acho constantemente
que podia ter feito, sido, estado, lutado
mais.

Mas...

4/11/03


DA DOENÇA

A gripe
é um tipo
de libertação.

Não tenho que estudar
porque estou gripado.

Não tenho que mostrar
como sou bom no trabalho
porque estou gripado.

Não tenho que lutar
pelo amor perdido
porque estou gripado.

Esse meu poema...
Bem, estou gripado...

6/11/03


FIM: MAL EXPLICADO

Decepção é quando se vê
silêncio
onde deveria haver
cumplicidade.

(Acendo uma fogueira de ódio
pro frio passar mais fácil.)

9/11/03


FIAT LUX

A Carlos Nejar e Marco Lucchesi

Se sou palavra
não serei a mariposa:
borboleta desfeita
em ausência.

Se a luz brota
atravessa
colore
transforma
via palavra...

A larva da sombra
contínua
com vaga
lembrança
do que foi
do que se foi
apaga.

Apaga agora!
Apaga que eu quero
brilhar.

Palavra é poder
e eu posso querer.

Sem raiva
ou reclame
há um mundo
a ser mudado
e sou soldado
na palavra.

17/11/03


ARMADURA DE OURO

Para Gislaine Mirella

Nunca sinta:
“Você é tudo
pra mim.”

(Se sentir
não diga...)

Ninguém gosta
de quem se contenta
com pouco.

24/11/03


(Fabio Rocha)

quarta-feira, 13 de novembro de 2002

e-book Caminho a manhã (2002) - revisado em 2014







Caminho a manhã

Fabio Rocha




Copyright © 2002 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: CAMINHO A MANHÃ
No. Registro da Obra: 273656
Livro: 492
Folha: 316
Data de Registro: 13/11/2002
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Caminho a manhã

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br






Prefácio


Fabio Rocha é na poesia contemporânea um fabuloso exemplo de como podemos encurtar o verso sem perder a poesia. Com seu incrível poder de síntese, vai sugando nos dias que correm as metáforas que passam desapercebidas aos olhos daqueles que não param para observar um pouco além do óbvio.
Entre a política e o amor, vai deixando o seu legado poético repleto de fortes mensagens, que mereciam ser repetidas ao microfone em alto e bom som. Por vezes romântico, por vezes panfletário. Seu Auto-Retrato como ele mesmo define é incapaz de decifrá-lo (Nas ruas / sou sério / calado / careca. / Na Internet, / sou poeta). É exatamente assim que conhecemos Fabio numa primeira conversa, para só depois descobrir que quando ele diz poeta não é mera brincadeira, tão comum no meio virtual. Autor de 4 e-books e um primeiro livro pela editora Papel & Virtual, a palavra poeta é como uma respiração ofegante que o acompanha no dia-a-dia. Por vezes sério como Drummond (O silêncio salta / faz piruetas e dança, invisível / pelo espaço intransponível / que separa eu de mim.), por vezes repleto de humor como um Veríssimo (Eu não vou falar de mulher. / Olha a seleção / e os problemas de ereção / do Pelé...).
Ler os seus poemas é mergulhar no universo da poesia e da música clássica para poder compreender a grandeza das imagens que cria em seus versos. É querer saber quem são estas tantas mulheres que atravessam sua vida fazendo-o negar as próprias metáforas (Estou farto / de usar as mesmas metáforas / pra falar das mesmas dores... / Quero dores novas!).
Assassino e inquieto, Fabio é incapaz de calar seu verso a qualquer simples aberração que reprove na televisão. E sua arma para cometer o crime é nada mais que um lápis, uma caneta, um teclado. O poeta revoltado joga na cara do povo sua medíocre condição humana (Domingo só tem babaca / fazendo programa / pra babaca assistir / na tv.). Deste modo segue Fabio Rocha, caminhando a manhã e criando asas nos seus leitores para que estes possam cada dia ir mais longe, assim como ele está indo com a sua poesia.

Rodolfo Muanis, Outubro de 2002










“O melhor caminho é o do meio.” - Príncipe Sidarta (Primeiro Buda)











HEGEMONIA – O LEGADO

Seguindo a cartilha neoliberal
global-estadunidense
chegamos na beira do caos
ou no quase fascismo...

O privado é público,
o público é privado
e o Estado é privada...

Eis a nada simples missão
de nossa geração:

Estatizar o Estado,
consumir o consumismo,
democratizar a democracia
e reviver a vida.

22/5/02


AUTO-RETRATO

Nas ruas
sou sério
calado
careca.

Na internet,
sou poeta.

29/5/02


LONGE, LONGE

Para Drummond

Ando, ando...

Bancos vazios
em corredores soturnos.

Prédios noturnos
me observam calados.

Rostos, vozes
tudo, tudo
longe, longe...

O silêncio salta
faz piruetas e dança, invisível
pelo espaço intransponível
que separa eu de mim.

Não ouço meus passos
mas não importa
pois nem eu nem cada porta
por que passo
compreende esse trajeto.

Seguro
com as estrelas
o peso dos véus,
do escuro
e da ausência
inadmissível
intocável
intransponível
inassimilável.

O vento venta
mas venta pouco.

Quem dera a paz...
Ventasse mais...
Ventasse mais!

E expulsasse
de minha mente enfumaçada
as centopéias indecifráveis
que me fazem não achar.

UERJ - 6/6/02


NÃO FALAR

Eu não vou falar de mulher.
Olha a seleção
e os problemas de ereção
do Pelé...

Eu não vou falar de mulher.
Quero saber da novela
e se o clone fica com ela...

Eu não vou falar de mulher.
Não quero isso
nem o Thyrso.

Eu não vou falar de mulher.
Vou ficar sozinho
assistindo o Ronaldinho
correndo, correndo...

Como corro de mim.

7/6/02


SOLUÇÃO

Quero endorfina na veia
ou conseguir amar
uma mulher feia.

7/6/02


QUASE

A loucura me chama.
Chama tão próxima
que quase queimo.

7/6/02


INSETO

Para A.

Já perdi as contas
dos sonetos que li
de Neruda.

E continuo
incerto
quanto ao amor e ao âmbar.

27/6/02


A MARCA DA AMARGA AMADA ALÉM

Minhamada além
é quem?

Além daqui...
lá, lá, lá no lar
de não sei quem
dorme possivelmente
(cansada de procurar)
minhamada além.

Poderia ser Madalena
mas e a rima do poema?

Minhamada além
é quem?

Ah, se eu soubesse amar...
Ah, se eu soubesse achar...

É acima
avante
adiante
além além além...

Na noite escura
é a estrela de grandeza dura
que não vem.

7/7/02


PAPEL

De todo o silêncio
ouço só o esplêndido
silêncio das árvores.

Pois o silêncio de quem fala
e cala
é incompleto.

Por isso, ouço o silêncio
distante
das árvores que nunca vi.

8/7/02


PÓS-FÁCIL

Para Elaine Pauvolid

Aliás,
ver você
poeta e musa
musa e poeta
de vermelho...

Aliás,
ler você
entregue ao trago
(cheio de um estilo estranhamente reconhecível)
perdida e achada,
pichando meus muros
nos domingos sozinhos,
afugentando a felicidade,
completa, repleta e secreta
com borboletas, letras e pássaros artesanais,
Deuses infernais
e querendo aprender a mentir...

Me fez sorrir
por todo o longo caminho
de volta, sozinho.

(Pois me vi
em ti.)

16/7/02


REPETECO

Estou farto
de usar as mesmas metáforas
pra falar das mesmas dores...

Quero dores novas!

17/7/02


CRISÁLIDA DE CARNE

Quase tonto
quase tento
sair.

Só não sei como
rasgar o que sou
sem ferir.

28/7/02


TROVÃO

Tudo comigo é difícil
porque tenho essa mania
de querer que o impossível
rime com poesia.

28/7/02


NOITE

A noite é escura
demais.

Preciso de espaçonaves alienígenas,
preciso de Platão, de Aristóteles, de Pitágoras, de Drummond...
preciso de um Deus
melhor.

13/8/02


CAIXÃO

A Roger Waters

Eu queria comprar
uma caixa grande
pra ter onde colocar
(em ordem alfabética)
as cartas de amor, as fotos, os presentes
e a dor
de minhas três
ex-namoradas.

Eu queria comprar
uma grande caixa
para morar
bem longe, sozinho, longe, sozinho e longe...

Eu queria comprar
um gigantesco cadeado
pra me fechar pra sempre
e não querer abrir.

15/8/02


TARDE DEMAIS

O som do céu é surdo.
O azul, absurdo.

Absorto,
observo a letra F farfalhar
o fim.

19/8/02


CAIXOTE

Perdido estou.
Perdido vou ficar.
(Com ou sem você.)

Não há tempo
(nem vontade)
pra me achar
na vida.

Mas o desencaixe
me encaixa
na arte.

21/8/02


TOCAR

O telefone não tocou.

Ligo a tv.

Domingo só tem babaca
fazendo programa
pra babaca.

Vejo um ser humano
tocando gaita com o nariz
consciente da babaquice mútua
no meio da tarde.

Mas mesmo assim
babacamente percebo também
o telefone mudo.

8/9/02


SOFRER

Preciso de
estrume
pro poema
florescer.

13/9/02


GEMINI

Ao Moska

Quem me separou
de mim?

Ergo e destruo pontes
erro aos montes
luto-me esgrima
me me afasto
do que nos aproxima.

Cortes múltiplos
mortes súbitas
fendas, muros e murros
sabedoria de burros...

Em dia nenhum
dois serão
um.

13/9/02


BAIXO

Destampem os ouvidos:
eu não vou gritar meus poemas.
Não quero crescer assim minhas certezas.
(Elas são pequenas e tímidas como eu.)

Nem farei piruetas,
ou virarei cambalhotas
para compensar as alegorias poucas dos versos
e as alegrias poucas da vida.

Minha poesia tem vergonha
de acordar o sonho do silêncio.

17/9/02


POETETRIX

Meu cabelo cresce,
minhas unhas crescem,
minha barba, insistentemente, cresce
e eu não cresço.

23/10/02


TAMBÉM JOSÉ

A Drummond

Vivemos no concreto
sem comer nada natural
sem beber nada natural
sem ser natural
e querendo preservar a natureza.




(Fabio Rocha)

sexta-feira, 7 de junho de 2002

e-book Vice-Rei (2002) - revisado em 2014









Vice-Rei



Fabio Rocha



Copyright © 2002 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: VICE-REI
No. Registro da Obra: 260441
Livro: 466
Folha: 101
Data de Registro: 7/6/2002
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não


Título original: Vice-Rei

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br














Para o amigo e poeta Ricardo Alfaya, que acha tanto no que escrevo tão pouco.






























Por baixo da saia

À primeira vez que tive contato com a poesia de Fabio Rocha, percebi o talento incontestável do autor. Isso se deu a partir do site www.falaê.com.br . Ambos éramos colaboradores. A partir das pistas naquela revista eletrônica - para mim, uma das melhores em termos de diagramação - que visitei a página pessoal do autor www.amagiadapoesia.cjb.net, o que foi uma grande descoberta.

Muitos há no Brasil talentosos e Fabio é um deles. A internet é a saída para todos nós que trabalhamos com arte pois, até agora, com pouco dinheiro nos fazemos circular em tempo inimaginável até o início da década de 70 e em termos de Brasil, até o final dos anos 80, com complacência e até ontem com realismo.

Fabio tem sensibilidade e talento para fazer uso desta ferramenta, se não acessível a toda população, pelo menos à classe média. O site, A Magia da Poesia, muito bem diagramado, diria até que revelando um outro talento do autor, o das artes plásticas, ou quem sabe, desta tão falada poesia visual, chama atenção primeiro por isto: pelo show visual que nos dá em economia de formas e precisão estética. Ao longo do tempo, conheci seus poemas nus. Sem a roupagem rica das cores e da animação cibernética. Estavam lá versos verdadeiros, versos por inteiro. Sem dúvida, sua poesia perde muito sem suas vestes plásticas. No entanto, percebe-se o ente nu, totalmente desfolhado, mas não esfolado. Com o livro que temos aqui se comprova isso. São poemas curtos, à moda atual, tão vilipendiada por críticos nostálgicos de um tempo em que a genialidade parecia ser o comum e o normal nunca existido.

Principalmente entre jovens, a poesia tem sido curta. Que queriam os mais velhos? Como debruçar-se sobre epopéias e enormes sonetos com a rapidez em que estamos imersos, na qual nascemos? Seria forçar a mão em busca de um sonho perdido. Mas, que sonho? Quem poderá dizer a época mais profícua para versos? E não houve Safo e muitos outros que em poucas linhas diziam quase tudo? Sem dúvida, muito se perde por julgar um poema pela quantidade de versos, presença de rimas, ou imaginárias missões maiores.

Certo é que muitos preguiçosos e orgulhosos de sua ousadia rabiscam palavras de ordem ou de segredos sem notar que o poema curto não é uma regra, não se esgota e nem é uma grande descoberta ou invenção pós-moderna.

Se curto porque deva ser curto, que seja, e se está curto porque não está pronto ou nunca estará que se estude e se trabalhe no balbucio primeiro. Esses, que também são muitos, fazem deste estilo, seu estilo, sem notar que ficaram presos no próprio reflexo à maneira de Narciso e nem sabem em que estão afogados.

Em Fabio, percebe-se que há um trabalho em constante evolução e seus poemas se fecham no círculo necessário a qualquer projeto. Ele sabe terminar um poema. Eles acabam em si. Eis o ponto crucial de Fabio, o que o singulariza. Realmente temos poemas muito curtos. Curtos o suficiente para nos surpreendermos. Vejamos o poema “Casa”:

Quero estar em casa
longe dos olhos alheios,
minhas sombras sempre estranhas
e esses malditos espelhos.

Que se pode acrescentar a este poema? Que dizer dele além de: sim, é verdade eu sinto isso. Mas, atenção ao sentido de leve escamoteado pela ausência da preposição “de” nos dois últimos versos: longe dos olhos alheios, minhas sombras... Com a atenção que peço ao leitor, vejo o seguinte: Quero estar em casa/ longe dos olhos alheios, de minhas sombras sempre estranhas e desses malditos espelhos. A preposição pode ser suprimida se presente no início. E se o poeta não a sumprimisse o poema perderia seu valor se não totalmente, em grande parte. No entanto, também se poderia entender os versos últimos como aposto em que olhos alheios seriam as sombras estranhas e malditos espelhos onde o pronome esses reforçasse ainda mais a ira do autor. Sim, esta é uma segunda leitura do poema. Na primeira, uma referência ao resto da população que rodeia o poeta, o mundo e seus obstáculos enormes, a casa como refúgio tranqüilo onde ele pode ser essência e não reflexo, sem espelho, com olho de alma invisível e sensível. No segundo a referência ao grande Outro, na consciência de que o inferno não são os outros, é o Outro disfarçado de outros, como não diria Sartre, porque Lacan ainda não teria difundido sua idéia de Grande Outro.

Percebe-se de pronto a personalidade do poeta, uma personalidade tímida e bem humorada como costumamos ser, brasileiros. Manuel Bandeira mesmo triste e choroso é cômico, ou não? Que dizer da relação que teve com Elizabeth Bishop quando esta foi presenteada com uma casa em Petrópolis ao lado de uma mulher como Lota. Bishop o achava típico, como os demais brasileiros, como se vê em suas cartas. Mas, quem está de fora, vê que também ela era típica, falava de versos puros e se torturava por serem tão difíceis. Bandeira deitava na rede, tranqüilo e seus versos falavam das coisas simples do coração. Bishop queria falar dos barcos, do porto de Santos, do encardido que não estava nela, ou se estava, não achava que deveria ser a poesia meio para mudar seu espírito. Bandeira, se falava do coração, de seus sofrimentos de raquítico, não era para purgar-se disso, mas para desabafar, para apaziguar-se e com os versos fazia comunhão com a sabedoria da serenidade do miserável, tirando místico prazer da dor. Bandeira era um poeta brasileiro de versos quase sempre engraçados, apesar de falar de coisas quase sempre tristes e Bishop uma missivista de língua saxônica, cômica, altamente cômica, em cujos poemas se vê um olhar estupefato, e mesmo que não quisesse, com o lampejo das almas sábias, que em tudo vêem um risco de graça.

Há humor nos versos de Fabio Rocha, mas é um humor sem intenção, um humor inerente à condição dos frágeis. Ele se mostra frágil em seus poemas, cônscio disso nos versos, sem auto-piedade, apenas mais um dos aspectos de sua poesia e essa fragilidade exposta é que dá a primeira impressão de uma comicidade e de se tratar de um poeta menos profundo. O que é engano enorme. Na releitura de Fabio é que percebemos que o humor, a graça primeira, era apenas um véu sobre o trágico da condição humana, das inúmeras limitações e fascinações a que somos expostos. Vejamos “pressa de amar”:

Sou aquele
que chama
pra dançar
e nota
que não tem
pernas.

Fabio Rocha é um poeta que levanta a saia. Mas, é preciso que o leitor não tenha pressa em o tragar, nem de o julgar. Ele levanta a ponta da saia. O leitor desnuda o vice-rei cômico, para descobrir uma verve autêntica de poeta que não veio para fazer rir, nem para fazer chorar, mas para fazer arte.

Elaine Pauvolid























SEM TIDO

Lá fora a lua brilha,
o vento uiva
e pessoas buscam.

Ah, eu quero entender o mundo...

Ou apenas
fazer um poema profundo.

28/12/01


FILOSÓFICO-RELIGIOSO

Por temer a morte,
o homem criou a religião
no oitavo dia.

No nono,
com dor de solidão
nas costelas magras,
o homem - esse portento
inventou o casamento.

29/12/01


MODAL

Minha irmã diz
que escrevo sempre
o mesmo.

Falta pano
nas metáforas
com que visto
o real.

30/12/01


LUGAR DIFÍCIL

Por falta do que fazer,
ando.

E o silêncio do caminho
me empurra
para dentro de mim,

onde sombras de amigos
suspeitos
espreitam

e vontades de amores possíveis
vão crescendo e corroendo
estradas sem direção.

30/12/01


CASA

Quero estar em casa
longe dos olhos alheios,
minhas sombras sempre estranhas
e esses malditos espelhos.

1o./1/02


ÚLTIMA PRAIA

Foi no mar
pensando em amar
que Iemanjá cutucou-me a canela
com um relógio.

(E funcionava!)

Seus ponteiros bussolavam:
não se acha o amor,
o amor é que te acha.

4/1/02


QUEM É VOCÊ?

O amanhã nunca vem...

E eu também
não vou além
de mim, refém
do eterno quem.

6/1/02


CENTRO

É desse chão cinza
regado de stress
que nascem as estranhas
plantas bípedes concorrentes.

Seus frutos são negros
quadrados
tem alças retangulares
e quase nunca caem.

Plantas que se movem
sempre
com ou sem vento
com ou sem chuva
com ou sem vontade
com ou sem vida.

7/1/02


QUANDO CRESCER

Senhor, eu quero ser mendigo,
esquecer o trigo
e comer o pão.

Eu quero não saber do dólar,
só viver de esmola
e ser ermitão.

Ignorar o mundo e as letras
e fazer caretas
para o camburão.

Sonhar sonhos de ignorância
e só ter a ânsia
de viver em vão.

Comer antifrutas sem sumo
e andar sem rumo
pela escuridão.

8/1/02


LADO B

Revolução!

Tá, e agora?

Como
virar
a mesa
sem quinas
sem pés
sem vidro
sem ferro
sem esquerda
sem direita
sem mesa?

9/1/02


OLHO

Quanto mais
estudo os Grandes,
mais encolho.

11/1/02


PROLIXO

Não é por vivermos em edifícios
que devemos escrever difícil.
Pro leitor, não pro lixo.

18/1/02


VERÃO NO SUBÚRBIO

Como se não bastassem
a acidez do sol
e o bafo do asfalto

ainda tocam
fogo
nos fundos
dos quintais...

e essa música branca
sobe
e arde
a tarde
no pulmão da cidade.

22/1/02


VÊNUS

Nesse mundo cheio de chão,
pleno de terra,
busco
o prazer das coisas
comuns.

Mas só encontro
vontades
de asas
e
deltas
de Vênus.

22/1/02


SE MEU GOLEM FALASSE...

Para Fellipe Cosme

Estou chorando vendo João Kleber,
imaginando pátrias sem hinos,
colecionando crepúsculos de ouro
e me regozijando com sorrisos femininos
vindouros.

(de amadas distantes desconhecidas desmanteladas - amadas que não vêm)

Bailo bailes com minha mão
e nem ouvindo o trovão
meu desejo cala.

Sim, tenho e sou mala
mas não viajo.

Ralho
e quase não saio.

Passa, tempo!

Me vicio em novos videogames e RPGs
e me encontro anão
em pontos de ermitão.

Tempo voa.

Bebo Coca-Cola,
arroto antiglobalização.

Sobra tempo.

Leio Nietzsche,
pergunto Jesus.

Tempo pinga.

Minha pele
expele
pus.

5/2/02


SONETO À SOLIDÃO

Com amor eu tudo faço
pela minha companheira.
E se vejo a lua inteira
Não me basta um pedaço.

E me jogo no espaço
De uma espreguiçadeira
Tendo a alma seresteira
Encharcada de compasso.

Essa música de aço
Que eu faço de bobeira
É pra minha companheira...

E essa cara de palhaço
E esses versos de terceira
São pra minha companheira.

6/2/02


EXTINTAS ESTRELAS – EXTINTAS

A Fellipe Cosme

Raros amantes,
amantes pequenos
com relógios imensos,
caros
relógios intensos.

Procriam no cinza
cada vez mais alto e alto e alto...
mais longe do céu.

Abraçados pelo turbilhão
da população crescente
e anônima
com relógios de nome.

Tropeça a noite
sobre tudo e todos,
mas só alguns
semeiam em folhas
alvas
o cheiro de extintas estrelas
de épocas menos poluídas.

E inventam melancolias
de quando havia casas vazias,
toques de mão,
amigos irmãos,
terra
e tempo.

10/2/02


CELESTE

Para Andréa

O meu anjo negro
eu não possuo.

Suo
tentando achar
escuridão em anjos outros.

E acabo por concluir
que não existem anjos.

19/2/02


A ESTRELA

Na plantação vazia
a vastidão arrepia.
Então eu cultivo
a estrela mais impossível.

22/2/02


A SABEDORIA DAS AMENDOEIRAS

A Manoel de Barros

Quero
não
querer.

25/2/02


DIA DE SOL

O vento me soprou
um céu azul cereja
e vi na borboleta
mais Deus
que na igreja.

26/2/02


MUNDO

Pego todos os caminhos
que me levam a nada
pois tudo é imundo.

5/3/02


DA AGRESSIVIDADE DA BELEZA

Há belezas
que ofendem
as fendas
dos olhos.

No seu equilíbrio
de curvas e cores
parimos faltas.

5/3/02


PÊNDULO

Caminho no campo florido
ouvindo gritos de revolta.

Na palma das mãos,
louvor e sangue.

O sol que brilha
esfria minha alma.

Tropeço em preces
mas a pressa empurra.

Vago e divago
entre
dentro e fora.

(Me falta uma espada
pra cortar espelhos.)

Onde começo eu
acaba o mundo.

14/3/02


ESPADA

Eu sou o imbecil
com uma bandeira
branca no meio da guerra

que costuma levar
espadas
em passeatas
pela paz.

Se me deixam,
choro em nascimentos
e rio em funerais.

Meu rio
não quer
a_mar.

E
vence
a gravidade.

15/3/02


VICE-REI

Eu sempre estendi as mãos
para as borboletas...

Abria os braços
para o passado saudoso...
para o futuro sonhado...
mas nunca tocaram em mim.

Hoje, fiquei imóvel
e uma pousou no meu pé.

19/3/02


MIL E UMA NOITES

Minha boca
já se encheu
de línguas...

Meu esqueleto
escaleno
já se esforçou tanto
em camas e lustres...

Mas minhas mãos
mendigam ainda
em peitos
em busca
dum coração.

30/3/02


DELIVERY

Somos nazistas alienados
contribuindo semicegos
para os campos de concentração
de renda.

Criamos necessidades de consumo
inúteis
matando chances e gentes
ainda mais cegas.

Quem tem olhos,
tem bolsos
cheios
e milhões
de vendas.

5/4/02


POESIA SOCIAL

Sou Sísifo,
mas fraco.

A pedra
não move.

Espero
mais mãos.

14/4/02


METAFÍSICO

Eu sou o último tombo
o filho único da espada
o fim do eterno retorno
a vida e a morte, mais nada.

16/4/02


A LÍNGUA DA PAIXÃO

Para Anne Caroline

Soltem meus braços!

Deixem-me berrar
aos sete ventos
que a vida é boa...

que há línguas
como a tua...

e que amar
não rima à toa.

21/4/02


PRESSA DE AMAR

Sou aquele
que chama
pra dançar
e nota
que não tem
pernas.

27/4/02


BARBA

Eu queria ser feliz
e falar de futebol
mas me interessam
idiossincrasias e cnidoblastos com nematocistos.

Não presto.

27/4/02


SUPER EGO

Um bom motivo
para a tristeza latente
em minha felicidade descrente
talvez seja esse relógio duro
a segurar meu punho
e a ameaça duradoura
das gravatas borboletas atrasadas vindouras
ao pescoço ainda livre.

Quem sabe não é por isso
que os músculos de meu rosto
em protesto
doem
quando rio
sem querer
em festas
de família.

3/5/02


A OSCAR WILDE

Sim, talvez eu devesse
assistir a essa maravilhosa
aula (cópia de livro em giz)
e assim perder
a peça de Oscar Wilde
de graça no anfiteatro B.

Só que...

UERJ - 7/5/02


PORQUE AS ANDORINHAS DE CHUMBO NÃO VOAM

Não crêem.

7/5/02


MATA

A Oscar Wilde

O homem
mata
o que ama
porque ama
o que acaba.

7/5/02


PSI

Se grito
ou falo baixo
não me acho:
procuro demais.

7/5/02


DO FIM

Para Anne Caroline

Suas lágrimas seguraram a minha raiva.
Meu orgulho segurou a minha lágrima.
Minha mão segurou a sua, pela última vez.

Fui tentar me sentir seguro no carro,
e liguei o rádio...

Pensei: “Tudo menos aquela música agora...”
E foi justamente a que tocou.

Aumentei o rádio e olhei o carro adiante
com o símbolo do Batman
simbolizando pra mim: siga em frente.

Não segurei a risada...

Pois nessas horas é que acho Deus
e acho Deus engraçado.


(Fabio Rocha)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2002

e-book PraLarvas (2002) - revisado em 2014








PraLarvas

Fabio Rocha



Copyright © 2002 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: PRALARVAS
No. Registro da Obra: 249307
Livro: 443
Folha: 467
Data de Registro: 14/1/2002
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Pralarvas

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br


















Para Ananda.





















Pré.......... Fabio

O cuidado com as palavras não precisa de guia. Fabio é seu próprio guia: pergunte ao Garçom.
Veja em Ex-tudo o inconformismo com aquilo que se repete e não serve: pense em ex-tudo.
O pensamento livre, bem geminiano, fazendo da imaginação momentos de prazer: "Um guardanapo / em Guarapari / jaz lá, / não aqui". Isso depois da sensualidade do decote e de brincar com o vento jogando com as palavras como quem não precisa de dicionário.
Não conheço o Fabio pessoalmente.
Vemo-nos pelo que escrevemos um ao outro usando a frieza dos bits e bytes aquecidos pela fraternidade das palavras.
E por não tê-lo ainda visto, por não ter tido aquilo que se chama de "primeira impressão", por conhecer um pouco da sua alma através da sua familiaridade com as palavras e os sentimentos que delas emanam, é que posso chamá-lo de amigo.
Contenho-me; agora. Melhor deixar de conversa, deixar o "Sonho ser sonho", mergulhar em "O melhor da festa", deixar-me levar pelo "Movimento" da tempestade e dar-me o gosto de ler Fabio.

Felipe de Paula








ORNAMENTAL

Do alto
de meu desejo
antevejo um salto
(fundamental)
no decote.

9/7/01


VIDA

Viver
não é deixar
a vida se esvair
cada vez mais rápida
pela rotina.

Não é ganhar rugas,
ser vencido pelo despertador,
contribuir para o sistema...

Viver
é criar
futuras recordações.

21/8/01


DAS CONTRADIÇÕES

Assisti casmurro
a reportagem de uma hora
sobre os efeitos terapêuticos
do riso.

31/8/01


AO UMBIGO

(Para Luciana)

No meio do caminho
havia um PM.

No caminho da mão ao pelo,
do não ao sim,
do são ao louco...

Havia um PM.

E o pelo preto
e a pele branca...

Ah, que raiva
das minhas retinas amedrontadas
das minhas vontades anestesiadas
das minhas desculpas esfarrapadas
das minhas poesias estagnadas.

No meio do caminho
havia um PM.

6/9/01


GÊMEA ESTUPIDEZ

“Quem semeia vento colhe tempestade.” 

O estrondo do avião no prédio
- tempestade colhida -
me silenciou a vida.

15/9/01


ERAM OS DEUSES ASTRONAUTAS?

O Deus não divino
não desceu
das nuvens.

Cansei de procurá-lo
em evidências incontestáveis
que nunca provam nada.

Cansei de esperá-lo
no contato final
que nunca chega.

Fique onde estiver,
dane-se.

Minha ascensão
é pela palavra.

25/9/01


ASA

A casa
de que gozo:
o acaso.

30/9/01


EPISTEMOLOGIA DO INDEFINITIVO IMAGÉTICO

Intuição.

Soçobrava
e só sobrava
a velocidade
de premissas gelatinosas
superadas.

Se o saber é reto,
apenas antenas estagnadas
sabem.

O paradigma desequilibrou-se,
caiu,
quebrou-se
nas curvas de equilíbrio.

Sou caonauta.

Navego no caos
do uni-verso
turbocapitalista
criminógeno.
(sem hierarquização do conhecimento)

Descarte
Descartes!

Nossa dimensão
efervesce
na indeterminação
da pluralidade
mafiosa
inconvergente.

Nossa força
é polimorficamente manifesta,
descontínua,
antiestética,
desconexa.

Nosso enigma:
como não deixar
a flexibilidade do século
quebrar a ética atemporal.

5/10/01


INFÂNCIA

No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.

- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.

- Só não perde a cabeça porque está presa no pescoço.
Disse a vó.

Pedrinho ria a danar.

Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.

20/10/01


REVOLUÇÕES?

Os ricos morrem de morte morrida.
Os pobres morrem de morte matada.

Revolução!
Sangue na calçada.
Império desce, império sobe...
do botão ao avião
da espada à metralhada.

Os pobres morrem de morte morrida.
Os ricos morrem de morte matada.

22/10/01


AINDA BEM

Até a vida
é exceção
à regra.

29/10/01


FELIZ DE QUEM NÃO SABE

Os nacionais
bons homens
das multitransnacionais
comem produzindo fome.

Pregam a liberdade
de mercado
e aumentam a desigualdade
com seu trabalho, mascarados.

Até quando vamos exportar nossas almas
por preços injustos
e importar tecnovidas nada calmas
a altos custos?

12/11/01


PRALARVAS

O que fica
da vida
vivida
pro amanhã?

Trabalho
pra larvas.

12/11/01


SECRET GARDEN

Hoje basta a poesia
pois eu sei que algum dia
em certo jardim secreto
mostrarei a cada neto
não nascido, as terras
que não possuí e as guerras vis
de que não participei
e tudo aquilo que não fiz
(nem farei).

E sentiremos o vento...
e celebraremos o silêncio...
até que o sorriso final
se desfaça em noite
restando apenas
o aceno das árvores.

17/11/01


DO EMPENHO

Se eu conseguisse, com jeito,
fazer algo direito,
talvez o céu virasse mar
e o mar, sertão.

Mas não...
A direita, respeito,
mas sou de esquerda extrema.

(Não a tema!)

E em 50
não há mais trema?

23/11/01


NUMA LINHA

A essência da felicidade é a ignorância.

5/12/01


TEMPO

Só fazemos algo quando não fazemos nada.

UERJ - 13/12/01


ERRO

Não fui eu.

UERJ - 13/12/01


CASA

De minha avó paterna
herdei a vontade interna
de não ir.

Superada apenas
pela de que não venham.



(Fabio Rocha)

terça-feira, 3 de julho de 2001

e-book Na Medida do Impossível (2001) - revisado em 2014










NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL


Fabio Rocha




Copyright © 2001 por Fabio Rocha - revisado em 2014

Registro EDA – Biblioteca Nacional:
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL
No. Registro da Obra: 233566
Livro: 412
Folha: 226
Data de Registro: 3/7/2001
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Na Medida do Impossível

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br






PRÓLOGO PARA UMA POÉTICA DO IMPOSSÍVEL

por Ricardo Alfaya

Depois de “A Magia da Poesia”, 2000, livro de estréia no qual o poeta carioca Fabio Rocha reuniu uma seleção de poemas escritos desde 1994, o Autor brindou seu público, em março deste ano, com o belíssimo “Tudo pelos Ares”, sobre o qual também tivemos o prazer de tecer alguns comentários. Embora tenha apenas 25 anos de idade, o trabalho de Fabio tem chamado a atenção dos leitores de poesia, além de vir obtendo diversos prêmios em concursos. Assim, estimulado pela boa receptividade, praticamente em seguida ao lançamento anterior, o poeta oferece este “Na Medida do Impossível”, que, justamente pela proximidade no tempo com “Tudo Pelos Ares”, incentiva a observação das sutis nuances diferenciais presentes no terceiro trabalho, nas quais se percebe a expressão da singularidade que o constitui.

Para começar devemos admitir que, individualmente considerados, quaisquer dos poemas de “Na Medida do Impossível” poderiam figurar em “Tudo pelos Ares”, sem prejuízo das qualidades de unidade de conteúdo, originalidade de discurso e sabor da palavra tão ressaltadas por nós naquela Obra.

Por outro lado, se enganará quem, em função disso, imaginar que “Na Medida do Impossível” seja apenas mera repetição. Na verdade há um “plus” neste terceiro livro, pois o conjunto de poemas, escrito no período de fevereiro a junho de 2001, assume um certo caráter de diário. A substituição do diário em prosa por um fazer poético quase diário assinala uma das tendências da produção poética contemporânea, sobretudo nos tempos pós-Internet. Já a poeta Rosy Feros teria sugerido o fenômeno, ao intitular seu belo e premiado livro como “Tecendo Diários”. Aliás, não sem razão, Rosy vem desenvolvendo animadamente a atividade dos “blogs”, sistema que constitui um retorno aos diários, mas em forma pública e eletrônica pela Rede. Entretanto, se Rosy o sugere, Fabio Rocha torna explícito o fenômeno da substituição, quando o refere claramente no poema “Diário”. O mesmo poema soma ainda um outro ingrediente, que diz respeito à própria proposta do livro como um todo, assunto sobre o qual falaremos mais adiante. Repare-se, a propósito, no texto mencionado:

DIÁRIO

Parei de escrever
diários.

Agora
minha poesia quase diária
já fala sobre tudo
que não faço.
E não tenho
que pôr pingos nos is.

Assim, tudo que o poeta experimenta e com que interage eventualmente se pode tornar objeto de sua pena: o telefone ocupado, a notícia do jornal, a imagem na tela da TV, a lembrança da namorada, a borboleta que passa (ou que se imagina que passa), a efêmera peculiaridade de um determinado momento. Em geral o registro é curto e não se limita à tentativa do relato conforme a realidade, no que se diferencia da linguagem dos diários. Os fatos são transformados em razão das urgências poéticas do Autor. Desse modo, a poesia, enquanto diário, revela-se, paradoxalmente, um antidiário.

Porém, não apenas por essa razão constitui um antidiário. Ao leitor não terá passado despercebido o sutil detalhe do poema acima transcrito: a poesia de Fabio, enquanto diário, diz daquilo “que não faço”. A afirmação provoca estranheza. Afinal, em poucas obras de poesia se constata a presença de um poeta tão variado e itinerante. Desde seu livro de estréia, Fabio Rocha percorre atento o movimento das menores coisas, caminhando reflexivo, lírico e lúdico por notável diversidade de temas.

Observe-se que eu disse “caminhando”. Também Cecília Meireles, poeta expressamente homenageada nos versos de Fabio, tinha essa característica da observação das coisas. Quem lê Cecília, tem a sensação da riqueza do mundo. Cecília inúmeras vezes desce às minudências das coisas, capta detalhes de folhas e insetos, o significado de um gesto, da transformação de uma linha da face. Porém, quando estamos com Cecília não temos a sensação do poeta em movimento; sim, pleno de atitude contemplativa.

De outro modo sucede com a poesia de Fabio que se mobiliza junto com o movimento das coisas e do mundo. Ele não apenas contempla, interage, está dentro do absurdo vulcão dos acontecimentos. Fabio cursou Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante cinco anos, sem concluir o curso. Optou pelo de Administração de Empresas, que faz atualmente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em sua poesia ele fala de seu trabalho e de seu estudo, bem como de tudo que lhe sucede: elogia, briga, dialoga, sofre, diverte-se, critica, "chuta latas", ama, manda "tudo pelos ares"; sobretudo, os "ares" da Rede, conforme me observou numa de suas mensagens.

Logo, esse “que não faço”, longe de relacionar-se com um estado de inatividade permanente do Autor, vincula-se a dois outros aspectos. O primeiro equaciona de maneira sutil o fazer da poesia com o imprescindível tempo de ociosidade necessário ao fazer artístico. O tempo do poema é, portanto, o tempo do “não-fazer”, o tempo “inútil”, isto é, o registro diário poético somente se pode dar quando o indivíduo se vê por fim desembaraçado das “utilíssimas” e estressantes obrigações impostas pela sociedade contemporânea, sem as quais não é possível sobreviver. Daí, a opção pelo poema de linguagem concisa, verdadeiros “cortes” impostos pelo poeta aos ditames da realidade. Realidade que absolutamente não aceita e com a qual não concorda, atitude expressa em vários poemas, e bem claramente no belíssimo trabalho intitulado “Para Álvaro de Campos”.

Temos aí, portanto, o primeiro ângulo em que a “medida possível”, o poema conciso, medida imposta pelo escasso tempo e condições em que o poeta é forçado a trabalhar, resulta numa “medida impossível”, posto que desfalece o poeta numa sensação de incompletude. Por incompleto, rarefeito e disperso, ignorado pelas grandes editoras e apartado de um público mais amplo, e ainda em meio ao tiroteio das cada vez mais múltiplas e individualizadas manifestações da poesia existente, o “fazer” termina por assemelhar-se a um “não-fazer”.

Quanto ao segundo aspecto, do “que não faço”, ele encaminha à reflexão maior que atravessa a Obra. Reflexão que, no início desta apresentação, dissemos tratar-se de um importante diferencial em comparação com “Tudo pelos Ares”. Refere-se à união criticamente realizada pelo poeta entre a crise poética e as crises social, política e existencial.

A primeira pista aparece já no título do livro. Em seguida, ganha maior nitidez com a alusão introdutória à Obra, feita a partir do seguinte trecho do poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo (...)”

Por fim, o significado surge inteiro após a leitura dos diversos textos, quando chegamos ao excelente poema-título, estrategicamente colocado no final do livro, o último que se lê, no qual o Autor retoma e amarra a idéia central que lhe inspirou a organização do conjunto:

NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.

Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.

Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível.

Portanto, o segundo significado para aquele “não-fazer” diário, correlaciona-se com a aparente ausência de sentido daquilo que fazemos em nosso dia-a-dia, o que inclui o próprio fazer poético. Se o que fazemos não “faz sentido”, equivale, em última instância, a um “não-fazer”. Logo, o “Paraíso” aludido no poema tanto pode ser percebido num sentido físico (social e político), metafísico, quanto metalingüístico.

Pode-se com propriedade concluir que Fabio Rocha se insere na herança cética e nihilista que vem desde nomes como Fernando Pessoa e Drummond. Ceticismo e nihilismo esses que se tornaram constantes e cada vez mais recorrentes na poesia em geral praticada nas duas últimas décadas anteriores à virada do Milênio, como um autêntico mal de “fim-de-século”. Entretanto, a conclusão, resumida nesses termos, não me parece que iluminará o melhor entendimento da escrita do poeta, tampouco trará a lume o detalhe que revela sua peculiaridade.

Sim, porque é disso praticamente que se alimenta a boa poesia feita em nosso tempo: ser capaz de um detalhe peculiar, que lhe seja inteiramente próprio, por mínimo que seja, dada a enxurrada de autores existentes, em sôfrega experimentação diária de todas as formas, palavras e recursos.

Um desses traços incomuns diz respeito justamente ao desassombro com que o poeta expõe todo fazer como um “não-fazer”. Não se trata apenas, como se tornou habitual constatar ou falar, da relativa inutilidade do fazer poético, ou da aparente “falta de sentido” da existência. A negação em Fabio atinge um limite extremo, posto que sequer reconhece realidade, concretude, em todo pretenso fazer da atividade humana. Trata-se de uma operação de caráter tão radical que, mais do que conduzir a uma amargura drummondiana ou a uma angústia à Fernando Pessoa, termina, paradoxalmente, por atingir um caráter libertário e transcendente.

Nada de choro ou ranger de dentes. Tampouco sucede como em alguns personagens de Samuel Becket, cuja consciência da inutilidade de qualquer esforço conduz praticamente a um imobilismo que se resume à espera de um “salvador” Godot. Ao contrário, em Fabio Rocha é quase com serenidade, com intimidade, com absoluta leveza, com humor e até mesmo com declarado orgulho, que o poeta conduzirá o leitor à constatação do fato. Chega a recordar a atitude dos orientais quando nos revelam com voz mansa que “o mundo é ilusão”.

E aqui se revela por fim o último traço especial na escrita de Fabio Rocha. Traço que, sem dúvida, começa já a situá-lo, aos 25 anos, como um poeta do Terceiro Milênio. Se a sobrevivência ao total desencanto de tudo conduz à liberdade, o que fazer dessa liberdade, se todo fazer encontra-se de antemão condenado a ser um “não-fazer”?

A única resposta que parece possível diante de tão desconcertante quadro é partir para uma atitude inaugural calcada em nova ordem de valor. Não basta constatar, como Álvaro de Campos, que se tem em si “todos os sonhos do mundo”. Não basta, se continuamos a achar que a realidade possui valor maior do que o sonho. E que por possuir maior valor, sugerido pela aparência de solidez, a ela cabe o direito de manter contidos e quietos no abissal fundo do eu os sonhos que se tenha.

Se todo fazer configura na verdade um “não-fazer”, então a realidade é “nada”. Nesse caso, o sonho, o desejo, que se situa numa dimensão que transcende essa realidade lhe é superior. A realidade dirá que o sonho é impossível. Todavia, que legitimidade, que autoridade terá a realidade para falar, se, em última análise, ela é feita de “nada”? Talvez por isso, Borges, afinado com o budismo, entendesse que a poesia não se devia submeter à realidade, mas sim, exercitar-se na expressão do sonho, do desejo.

Considerando-se por esse prisma, a expressão “Na Medida do Impossível” despe-se de sua aparente ironia e negatividade para adquirir o sentido maior de um desafio a ser vencido. De certo modo, toda a expressão passa metalingüisticamente a referir ao próprio fazer poético. A poesia que tiver capacidade, força e originalidade para expressar os internos “sonhos do mundo” realizará em si a impossível medida. Ora, tudo isso possui um singular e fascinante sabor inaugural e transcendente, um explícito e ousado convite à ação. Um tom, portanto, muito diferente do ceticismo amargo ou do nihilismo paralisante, presentes em grande parte da poesia do Século e do Milênio passados.

Por fim, não me parece demais salientar que “medida do impossível” remete sonoramente a “menino impossível”. Diz-se de um menino “impossível” quando seu comportamento recusa a forma, rejeita o molde. Se pensarmos assim, reconheceremos que todo bom poeta possui algo de “menino impossível”, que “faz arte”. Jesus também foi Menino, sem dúvida animado por uma missão que sugere o impossível: fazer com que cada um ame ao Outro como a si mesmo. O possível é o existente, o conhecido, o assimilável. Todavia, como diria o grande psicólogo Wilhelm Reich, em “O Assassinato de Cristo”, toda criança que nasce contém em si a potencialidade para a plena realização, desde que a sociedade “não assassine o Cristo latente que existe em cada criança”. Somente a criança ou aquele que puder tornar-se uma, poderá pretender inaugurar e realizar o impossível. Igualmente apenas dessa forma, conforme vaticina Jesus, habilitamo-nos a ascender ao Reino. Ou, como percebeu Fabio Rocha, exclusivamente com atitudes e versos “Na Medida do Impossível” estaremos aptos a ”arrombar as portas do Paraíso”.

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2001.

Ricardo Alfaya, poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.















Para Marise de Sousa, minha borboleta azul preferida.





















ESDRÚXULO

Arde o fogo
e mertiolate
sem cachorro.

7/3/2001



PARTES

(Para Andréa)

Te acho
em partes
em outras.

Nunca são inteiras.

Nos olhos outros,
partes.

Nas falas outras,
partes.

Partes eternamente...

Uma alvorada
que finge brilhar
e escurece.

7/3/2001


TELEFONE

Ocupado?
O cupido,
o culpado.

7/3/2001


OS PÁSSAROS?

O sol renascia.
Bocejadamente abri a porta.
O horizonte se escondia atrás das árvores.

Entro no estábulo de folha
e alimento minha criação.
Do balde ao chão:
consoantes, dígrafos, cedilhas...

Comem caladas.
Levo duas ao colo e as embalo,
dou tapas nas costas, faço de tudo
mas não rimam.

Foi quando estranhei um estranho estranho ali parado.
Sem métrica para prendê-las,
todas voaram, cheias de sons pensados,
para seus olhos.

12/3/2001


NA FARMÁCIA

Para as mulheres
com beijos de fuga,
infinidade de nós pelas costas,
plenitude de nove-horas
e olhar de adeus,

o melhor remédio
é indolor, trissílabo e não tem reações adversas:
distância.

14/3/2001


PARA ÁLVARO DE CAMPOS

Ah, este ser aí sentado,
mão no queixo, olhos perdidos,
cercado de excesso por todos os lados,
não sou eu.

Eu sou o que há escondido
sob as camadas de pele, gordura, músculos, ossos e raiva.

Meu anseio é brutal,
quer comer o incomensurável...
e quer estar sozinho, como tu, poeta!
Soltem nossos braços!

Este anseio leva meu eu a pisar forte a realidade e suas teorias malditas,
cerrar os punhos, trincar os dentes e pular,
com a força de seus versos vivos,
como nunca se pulou antes.

Seguindo o conselho dos ventos,
na ascensão impossível,
babo chuva no grito absurdo contra as leis da gravidade.
E me agrada não encontrar
o teto do céu.


Caio como uma bomba
de nada.


Esse aí parado...

não...

não sou eu.

15/3/2001


PARA O MATO OU PARA A BAHIA

Aperto o passo
e o tempo encurta.
Quero partir.

Mas não parto.
Ah, realidade maldita!
Trinco os dentes
e nunca parto.

Adio a data,
invento desculpas...

E permaneço,
com a dor do parto
por não partir.

30/3/2001


TANGO MIO

Perdi o passo.
Sem equilíbrio,
pisei no pé do caos.

Meu ócio antigo
Se embriagava no bar,
cercado de inimigos.

O sonho não realizado
fumava-se, cabisbaixo,
num degrau abaixo.

Adivinhei minha esperança inteira
lá fora, no beco de Bandeira,
mendigando.

Ah, se em minha alma
Tocasse funk...

31/3/2001


REVELAÇÃO

Eu me esqueci no armário.

Pensei estar vivendo,
estudando, trabalhando, sendo!

Pensei ter amado e odiado,
aprendido e ensinado,
fugido e lutado,
confundido e explicado.

Mas hoje, surpreso,
me vi no armário embutido
calado, sozinho, perdido, parado.

1o./4/2001


ESMOLA

Senhor, não quero o seu Real.
Basta uma Ideologia.

O Socialismo se engasgou na fila do Mc Donald’s.
O consumismo martelador quebrou o muro inquebrável.

O que eu faço?

Administração de Empresas
e jogo Street Fighter.
(com Ryu e Wolverine ninguém me ganha)

Tenho 25 anos,
não vejo cor fora de uma tela,
não escuto estrelas que não gritem,
não me encaixo em nenhum quebra-cabeças
e meu pai diz
que não sei mastigar com calma.

9/4/2001


CEGOS, SURDOS E LOUCOS

Meu professor de canto
era surdo-mudo.
Com ele aprendi
a olhar os cantos dos cômodos.

E foi num desses becos de Bandeira
que um cego me ensinou
a errar os caminhos.

9/4/2001


GÊMEOS

(Para Marise e Pessoa)

Meu eu literário quer vencer o mundo,
meu eu real não quer sair do quarto.
Meu eu literário consegue ser profundo,
meu eu real, só pra falar já é um parto.

Meu eu literário conquista,
meu eu real perde.
Meu eu literário é comunista,
meu eu real no Mc Donald’s se diverte.

Meu eu literário existe,
meu eu real finge.
Meu eus se encontram, tristes
no cinza do egoísmo que os tinge.

15/4/2001


REAL IDADE

Sou alienado consciente.
Trabalho em greve interior.
Me falam de dor de dente,
ouço poemas de amor.

20/4/2001


POETRIX ELETRÔNICO

No momento não posso escrever.
Deixe o seu olhar
após o final.

20/4/2001


GÊNIO

Não tenho tudo que amo
Mas não amo tudo que tenho.

Corro atrás de minha sombra
com todo o meu empenho.

30/4/2001


CONSTATAÇÃO POÉTICA

Entender o sentir
é como dançar azul,
cantar a lira,
jurar o medo,
beber a pira,
sorrir azedo.

30/4/2001


RAÍZES

E me sentei ao sol
sob a velha marquise.
Escrevi sobre tudo,
só pensei em Marise.

30/4/2001


ENTRE

(Para Marise)

Entre mim e mim
há vastidões de silêncio.

Vontades empoeiradas
seguem placas desorientadas.

Sonhos novos e antigos
brigam
invisíveis
inimigos.

Entre mim e você
há legiões de querer.

1o./5/2001


VIDA BESTA

(Para Drummond)

Hoje eu quero
me desfazer em versos
pois espero
o dia lesma passar.

Almoço
purê de batata
mastigando devagar.

A tarde sem sal
no trabalho sem sol
arde demoradamente.

Chego em casa
com preguiça de existir
e caso com a cama
num abraço vagaroso.

3/5/2001


POESIA HOJE EM DIA

No nada cinza
caço borboletas mortas
com a rede furada
para expô-las no dia que não chega
onde ninguém vê.

3/5/2001


IF

Se fazer poemas
fosse falar difícil
quereria eu ser
o síndico deste edifício
ou o porta-voz da presidência.

3/5/2001


POEMA MEGALÓPOLE

(Para Casimiro de Abreu)

Não cheiro flores, cheiro gás...
não vejo mares, vejo gris...
não rimo amores, rimo ais...
não ouço estrelas, ouço imbecis...

Mas insisto em escrever poemas.

3/5/2001


ALEGRIA

(Para Drummond)

E eu aqui nesta cidade,
cercado de realidade,
aumentando a minha idade,
alérgico a felicidade,
procuro flores no asfalto.

8/5/2001


DESPROFISSÃO

Escrevo poemas.

Não sou mais rico,
não sou mais feliz,
não sou mais nada.

Mas sou.

9/5/2001


ESTRANHO

É estranho
mas, certas vezes,
quando cerro a mão direita
com a raiva habitual,
não vejo nela
o dançar do fogo dourado
e chego a pensar
que não sou um anjo de Deus.

15/5/2001


ALTO

A poesia é um GRITO
contra todos
os meus silêncios.

17/5/2001


A CASA DO CAMINHO

Caminho.
Esterco.
Sempre me perco.
Não quero chegar.

Pelos campos imaginários
Levo palavras e saudades
Em minha inutilidade.

Respiro palavras
e ouço as larvas
nos casulos.

Elas,
sem janelas,
respiram também.

Ah, quanto céu...
O barro no pé
é de Manoel.

Sorrio
ao molhar as mãos no rio
escrito.

(Por vezes
me acho
em riachos)

Meu objetivo de vida
é ser casa demolida
com pombos
nos escombros.

24/5/2001


GRAVIDADE

A pedra
que levo
no nome
me some
o peso.

24/5/2001


UMBIGO

(Para Marise)

Palavras perdidas
em sua barriga
o ponto final.

24/5/2001


EDUCA-CÃO

(Para Paulo Emílio)

Vamos, filho...
Acorde antes do sol,
ponha seu uniforme branco,
pegue o trem dos anônimos
e vá aprender a não criticar.

25/5/2001


DIÁRIO

(Para Fábio e Eduardo Neto)

Parei de escrever
diários.

Agora
minha poesia quase diária
já fala sobre tudo
que não faço.

E não tenho
que pôr pingos nos is.

26/5/2001


TROTE

Pato, pata,
Porco, porca,
Pingo d’água,
mosca morta,
cerca branca,
velha torta,
branca vaca,
negra bosta,
tudo passa,
tudo passa,
tudo passa,
tudo passa;
tudo passa.

Tudo passa...

Epa...

O poema empacou.

29/5/2001


DESLIGADO

Apague a TV.
Esse refletido na tela
é você?

5/6/2001


ECONOMIA

Beijo pouco
porque a paixão morre um pouco
a cada beijo.

6/6/2001


DIARIAMENTE

Radial oeste congestionada sentido Centro:
Camarão quente mastigado com vidro dentro.

9/6/2001


BRASIL

A sociedade bisonha:
lixões, Piauís, Vales do Jequitinhonha...

Uma criança
por hora
por fome
vira anjo
chora homem.

Empresa
de morte
repete
a linha
de produção
pra terra:

Uma criança
por hora
por fome
vira anjo
chora homem.

E nós aqui
escrevendo palavras
enquanto se come
farinha com água.

18/6/2001


NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

(A Beethoven)

Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.

Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.

Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível.

24/6/2001





(Fabio Rocha)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2001

e-book Tudo Pelos Ares (2001)

Melhor visualizado aqui:
http://pt.scribd.com/doc/94114817/tudopelosares-fabio-rocha







Tudo pelos ares





Fabio Rocha








Copyright © 2001 por Fabio Rocha

Registro EDA – Biblioteca Nacional:
Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: TUDO PELOS ARES
No. Registro da Obra: 210400
Livro: 366
Folha: 60
Data de Registro: 11/9/2000
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA
Título da Obra: FÉRIAS
No. Registro da Obra: 224134
Livro: 393
Folha: 294
Data de Registro: 23/2/2001
Gênero da Obra: POESIA
Obra Publicada: Não

Título original: Tudo Pelos Ares

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

Endereço eletrônico:
http://www.fabiorocha.com.br



Índice

1. Capa
2. Dados
3. Índice
4. Índice (continuação)
5. Índice (continuação)
6. Pré-Fácil – Fred Matos
7. Pré-Fácil – Fred Matos (continuação)
8. Prosa de Abertura – Ricardo Alfaya
9. Prosa de Abertura – Ricardo Alfaya (continuação)
10. Dedicatória
11. Citação – Fernando Pessoa

12. I – Tudo Pelos Ares

13. NÃO PISE NA GRAMA
14. CREPÚSCULO
15. RESPIRÁVEL
16. ARCO-ÍRIS
17. VIAGENS
18. GREVE
19. ÁGUA-VIVA
20. QUADRO
21. GREYS
22. BELO-BELO?
23. CALCULUS
24. ORDEM
25. A CIGARRA ATÔMICA
26. SÃO JOÃO
27. DOENÇA
28. HIENAS
29. TAMANHO
30. FORD
31. A PRAÇA
32. SAIA SAIA
33. CONDICIONADO
34. DESEJO
35. LOIRA ECOLÓGICA
36. O GATO
37. A VIOLÊNCIA DAS VELAS
38. O TREM
39. PEQUENA SONATA AO LUAR
40. DE MAIO DE 1968 AO NEOLIBERALISMO
41. DA TENTATIVA

42. CULPA
43. DISTANTE
44. CÚMULO-NIMBO
45. ENIGMA
46. COMO?
47. DOURADAS
48. O SER POETA:
49. FOGOS
50. QUE HORAS SÃO
51. LÍNGUA
52. CINZA
53. DESAMOR
54. MODERNIDADE
55. LINHA AMARELA
56. CRIAÇÃO
57. X
58. ASAS
59. TERRA BRASILIS
60. VI UM SATÉLITE
61. FIM DE MILÊNIO
62. INDECISÃO
63. QUE ANDRA DOR FEZ ANDRADE?
64. A MORTE DA PERNA-DE-PAU
65. O NADA
66. TUDO PELOS ARES
67. ESTRELA DISTANTE
68. HERANÇA
69. UTILIDADE
70. A CECÍLIA MEIRELES
71. ISSEDÔNIA
72. CHEGADA
73. EQUILÍBRIO DISTANTE
74. FOTO DELA
75. ENGENHARIA ELÉTRICA UFRJ
76. VOCAÇÃO

77. II – Férias

78. E ATENÇÃO:
79. E ATENÇÃO: (continuação)
80. JANEIRO
81. PARA MANOEL DE BARROS
82. VIAGEM
83. CANTO NA PRAIA
84. PERENE

85. A FOTO
86. MONTES
87. PICOLÉ DE MANGA
88. POSSIBILIDADES
89. BÚZIOS OU NADA
90. QUADRO SUPERIOR ESQUERDO
91. O TORTO
92. LONGE
93. O FANTASMA
94. SÍNDROME DA CHEGADA
95. PELA ESTRADA AFORA
96. VENTO FORTE
97. SEVEN
98. KAFKA
99. NOITE NA RUA DAS PEDRAS
100. FÉRIAS
101. ALVO
102. FAMÍLIA
103. PLACA
104. SOPRO
105. ORGANIZAÇÃO CEREBRAL
106. DAS NEGATIVAS
107. INÍCIO DE UM ROMANCE POLICIAL
108. 3 A. M.
109. DESTINO
110. DELÍRIO
111. SAÍDA DE BÚZIOS
112. CORTE
113. Biografia
114. Biografia (continuação)

PREFÁCIL



Todos sabem que o nosso país não tem especial apreço pela leitura de literatura, sobretudo pela poesia. A arte brasileira por excelência é a música popular. Comprova essa assertiva o fato de que o Brasil é um entre os poucos países cujo consumo da produção nativa rivaliza ou supera a da música norte-americana, que se alastra, mundo afora, por força das grandes indústrias multinacionais que monopolizam a produção e o comércio das artes audiovisuais. Uma das características que contribuem para a vitalidade da música popular brasileira, excetuando-se os gêneros de sucessos fugazes, é a poesia. Isso posto, não temo estar errado quando afirmo que, por paradoxal que possa parecer, o brasileiro gosta de poesia, mas sofre da falta do hábito da leitura.
Contudo é alvissareiro observar que o advento da internet, e a sua massificação, tem resultado na aparecimento de centenas, quiçá milhares de novos poetas, alguns já maduros, outros em processo de aprendizagem, mas a maior parte, felizmente, formada por poetas comprometidos com uma nova atitude, que é a de não filiação às idiossincrasias que caracterizaram as escolas teóricas onde os discursos e manifestos fundavam-se preponderantemente na negação da corrente que pretendiam suplantar, como se a arte fosse uma guerra santa onde um ícone havia que ser derrubado para abrir espaço a outro.
É essa a novidade na nova poesia: há espaço para todos e para a diversidade de formatação poética. O belo já não tem vergonha de ser belo, o sentimento já não se emascula pelo temor do ridículo. As palavras libertam-se das amarras subjetivas que se lhes intentaram submeter com o falso dilema da hierarquização; uma tolice que parecia comparar o idioma a uma sociedade de classes onde designou-se para os adjetivos o papel de párias.
É este bom convívio entre todas as formas e todos os ritmos, este criar o novo, cultivando e cultuando o estabelecido e o eterno, uma outra das características que impulsionam a música brasileira e que agora há de servir à poesia escrita e ou inscrita em qualquer suporte onde a imaginação do poeta se lhe permita expressar.
Entre esses poetas que agora se revelam está o Fabio Rocha, que nos oferece à leitura este "TUDO PELOS ARES", livro onde se deve buscar a poesia que surge das suas inquietações, da sua acurada observação do tempo e espaço que habita e não o rigor frígido de poemas laboriosamente lapidados em laboratórios de dissecação filológica. Neste livro, mais que o corpo, é alma, a sua alma, que o poeta nos oferece. Deleitem-se.


Fred Matos, poeta


PROSA DE ABERTURA


Considero este um dos melhores livros de autores de nosso tempo que me chegaram às mãos.
O motivo? Difícil dizer de imediato, mas o que me impressionou foi a sintonia de sua poesia, na medida exata, com a época em que vivemos.
Não se trata apenas de ter escapado das armadilhas de tentar reproduzir esquemas recentes já esgotados de fazer poético, mas de ter sido capaz de escapar disso sem escorregar para fórmulas ainda mais antigas e passadistas.
Ler a poesia desse livro é tomar um banho de atualidade. Não no sentido meramente histórico ou jornalístico que a frase possa sugerir, mas também, no sentido estético.
Por outro lado, poucos livros terão recebido um título tão feliz e tão apropriado ao conteúdo que encerra. "Tudo pelos ares". Mistura de irreverência, crítica e lirismo. Título que sugere vôo, imponderabilidade e frescor. Também, explosão e fragmento. A pós-modernidade, com seu acúmulo total de tudo, explode de repente em seu livro e dos fragmentos que voam pelos ares você realiza notável colagem. Colagem ou reciclagem? Sim, há mais que mera colagem, como já se fez em outras obras. Há um discurso implícito nas entrelinhas que realiza a tessitura desses fragmentos, do qual emerge um novo sentido.
E aqui entra um fator interessante. Em vários momentos, Fabio Rocha mostra, com muita felicidade na escolha das imagens, o paradoxo em que estamos imersos. Somos destruidores do Planeta, mesmo quando pretendemos fazer "o bem". Pior, e você trata disso com eficácia num poema, somos destruidores até mesmo quando não estamos fazendo nada, quando simplesmente estamos dentro de casa, sentados no conforto de nossa poltrona. Existir é destruir.
Então, a sua poesia de certo modo realiza o sonho da reciclagem. Nada se perde, tudo se transforma, como em Leibnitz. Porque o título de seu livro, além dos aspectos já relatados, retrata também um medo que subjaz a nosso tempo. Sim, nunca estivemos tão perto de ir pelos ares. Mais que isso. Se pensarmos como Gibran Kalil Gibran, que dizia ser o medo da fome a própria fome, então, já fomos pelos ares. Todos nós somos, de certo modo, Memórias Póstumas de Brás Cubas. E você está lá no meio das nuvens da explosão, colhendo os fragmentos e reinventando-os. Com o espírito da reinvenção *possível*.
Talvez daí a irreverência sempre permeada por um toque de leveza. Não há na sua dicção o soturno canto nihilista, o peso do pesar, o hermetismo simbolista, a exaltação dramática. Também não há, e isso me parece importante frisar, aquele tom um tanto cínico que tem marcado a produção contemporânea mais recente. Em resumo: nem exaltação, nem frieza. Um olhar diferente, especial. E isso, acredite, não é pouco e, igualmente, é muito raro.

Ricardo Alfaya, poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.

Para o vento.

“Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.”

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
O GUARDADOR DE REBANHOS
















I - Tudo Pelos Ares



NÃO PISE NA GRAMA



Placa inútil e amarela:
“Não pise na grama.”

Amarela
pela ausência de girassóis.

Inútil
porque não tenho os pés no chão.





CREPÚSCULO



Que belas nuvens arredias
nesse crepúsculo dourado.
Longe, a Ave-Maria
vence infinitos telhados.

Pardais nos fios, nos prédios, nas casas...
parecem encantados.
Ah, o que se passa
sob esses tetos gelados?

No céu, agora há um balão.
Em breve, algo incendiado.
Barulhento e alto avião
me chama ao chão, atordoado.

RESPIRÁVEL



Quero tudo pelos ares.

Sem bombas,
o fim das certezas de terra,
das durezas de pedra,
das friezas de água,
das ardências de fogo...

Quero silêncio respirável.



ARCO-ÍRIS



Que o Senhor nos prometa
não mandar um cometa
bem no nosso planeta.

Sim, somos uns macacos...
com poucos pelos e muitos medos.
Mas os mesmos dedos
que apertam gatilhos, fazem partos.

Guarde os seus astros.
Se demonstrarmos total incompetência,
nossa criação atômica
não permitirá sobrevivência.




VIAGENS



Pela janela,
as luzes coloridas dos ônibus, dos caminhões
mostram sonhos apagados.

As casas simplórias, as encostas
lembram dolorosamente
onde não estive – que saudade.

O fio (onda negra)
desce, para, sobe,
bate no poste,
desce, para, sobe,
bate no poste.

Nós, fios de Deus,
temos que teimar em subir pelos ares
temos que teimar em vencer os postes.

GREVE



Tempo cinza que nos embaça.
Sabiá gelado.

Tudo perdeu aquela graça.
Vento recortado.

O céu é fumaça?
Sonho velho abandonado.

Isso um dia passa?
Ah, inalcançável passado...

(Eu sabia amar.)




ÁGUA VIVA



Eu quero o poema cnidoblasto,
cheio de chatos nematocistos.

Que arde como os antigos emplastos,
estranho como os ornitorrincos.

Que ignore aqueles verdes pastos
e embriague como vinho tinto.

Quero o verso chato enigmático
que cante tudo e nada que sinto.

Que se danem o pássaro simpático
e as flores em formato de brinco.



QUADRO



A melhor poesia
é como a paisagem
de costas.




GREYS

Para Carlos Drummond de Andrade

O vidro sujo do carro
faz ainda mais cinza
aquilo a que chamam Méier...

Nem o azul do céu
escapa da cor maligna
que em tudo se entranha...
(Poluído e funesto tom!)
Como num filme de Chaplin.

Me pego abismado,
ao ver ali as pessoas...
Sem ser filme, novela ou seriado...

Como serão suas vidas,
seres cinzas transeuntes?

Não tenho veneno,
tomo Coca-Cola...



BELO BELO?


Para Manuel Bandeira


O belo - a bunda.
Abunda o belo
padrão.

Sem carne, sem pão:
silicone na massa.
Famintos felizes morrerão.

Compre, beba, ouça, seja
bunda.

Hoje, a beleza
é ainda mais triste.


CALCULUS



Engenharia
leva qualquer 1
ao limite.

Integro
a massa que bóia.

Em ondas
de fórmulas
decoradas.

No mar
de inutilidades,
derivo à deriva,
sem objetivos nem assíntotas no horizonte.

Se achasse uma ilha
com um X,
no lugar do tesouro
haveria um Y.


ORDEM



O velho Erasmo Dias
não se arrepende.

Era um homem público
que só defendeu
a ordem
que só cumpria
ordens.

(aquela da bandeira?)

Nossa vitória
é ouvi-lo falar
o que quiser.
(mesmo essas imbecilidades)



A CIGARRA ATÔMICA


Para Drummond


A cigarra atômica
não se contentava em cantar
sem ninguém ouvir.

As pessoas passando,
walkmans,
admirando outdoors
engluteados

fizeram-na descer
da árvore.

Hoje canta na internet,
aparece na TV,
nos jornais
e é ouvida.

Cientistas afirmam:
É por causa de uma contaminação por Césio 137 que ela não morre.



SÃO JOÃO



Se Toledo
tivesse tolerado
ter lido
as instruções,
o estalido
não teria matado.







DOENÇA

Para Manoel de Barros

Só lendo Manoel de Barros
é que descobri o que tinha
minha professora loira do primário,
que vivia de olho arregalado
desolhando o distante:

Ela tinha lonjuras.







HIENAS


Para o Excelentíssimo Professor de Economia Paulo Márcio


Os pobres nem sabem
o que podem ganhar.

A classe média só pensa
no que pode perder.

Revolução? Não.
Melhor ver Malhação
e sonhar com o Jogo do Milhão.

Eu aqui sem aula e mudo
e meu Centro Acadêmico
vendendo X-Tudo.

Todos só dizem, entre empadas:
não se pode fazer nada.

Mas vamos sorrir, tenta...
Quem sabe o salário aumenta.



TAMANHO



Pobre navio
preso na garrafa.

Que importa o tamanho?
Lugar de navio é no oceano.


FORD



Se o Fordismo
inspirou Chaplin,
há esperança
para a humanidade.

Pela mesma lógica torta,
há Tchan e Djavan,
mosquito e periquito,
cigarros e Manoel de Barros.

A PRAÇA



A praça daqui
tem flores que caem
amarelas.

Melhor que todas
em que vivi.

Não há
mais bela.

A praça sorri
pros pombos de cartolas,
pros velhos ricos pedindo esmolas
e pra quem quer que prace.

– A praça que não vi.


SAIA SAIA



Ah, a sensualidade
dessa sinuosidade
em deslizante cetim...

beija os sentidos,
cintilando, seduzindo,
vibrando em mim.

Visão na mão de pelo loiro...
Aspiro o áspero suave
sucumbindo no sonho sem fim.



CONDICIONADO



Sim, eu poderia
ficar aqui sentado
sobre minhas vitórias,
derrotado.

Mas há alegria
fora do passado.
Quero o ar de glórias
do não conquistado.

O vento do incerto
é melhor que o conforto regulado
do ar condicionado.



DESEJO



Almejo
a Lisa.

Alcanço
a brisa.

Aliso
os alíseos.



LOIRA ECOLÓGICA



Seu eu parecer
não te ouvir
queira não se irritar
por favor.

É que fico meio arbóreo
com o verde dos teus olhos.


O GATO



De quando em vez
esse ser equilibrado
de aparente ausência assimilada,

esse eu sério, de óculos, barba,
poucas palavras e sorrisos,
desce da altura medida.

A vista míope enturva, escurece.
Dentes trincados não fazem preces.
A lentidão de pernas e braços
destransforma-se em negro gato.

Gato ágil que arranha de angústia rouca
tão profundo, tantas vezes, tanta gente...
vai embora num relampejar de luz pouca
e sou eu quem se arrepende.



A VIOLÊNCIA DAS VELAS



Vamos acender as velas
e rezar pedindo que a bala perdida
não atravesse nossas grades, muros e janelas.

Sigamos, multidão apática,
com sonhos mediados pela mídia.
Iluminemos essa cultura Iluminista
com fogo em nossas vidas egoístas.

20/7/2000



O TREM



O trem
vai rápido.

O trem
não segue trilhos
em seus caminhos aéreos.

O trem
não tem maquinista,
mas todos somos passageiros.

O trem
nunca chega, nunca pára.
(nem nas quatro estações)

Feliz de quem
aproveita a viagem.



PEQUENA SONATA AO LUAR



Noite.
Deus, sono lento.

Aplausos.
Mãos das trevas?
Não.
Gotas pingando nas frias folhas.

Edredom.
Sem som.
Sem sonho.
Se alimenta.
Lentamente.
De mim.



DE MAIO DE 1968 AO NEOLIBERALISMO



Os jovens contra o sistema
envelhecem.

Seus filhos, sem tempo,
emburrecem.

As grafites de Paris
em pichações desfalecem.

O sistema, o mesmo sistema
se disfarça, vence e cresce.

Descanse em paz, Guevara,
perdoe as preces.

Nós, os verdadeiros mortos,
vamos trabalhar.



DA TENTATIVA



Quis fazer um poema triste.
Mas triste estou eu, não o poema triste.
(Celulose com rugas no carpete.)

Tentei fazer um verso frio.
Mas frio é esse tempo excomungado, não o verso frio.
(Alvidez alvidrada janela abaixo.)

Imaginei um soneto morto
e vi que a folha não respirava.

– Medusa, olha essa poesia!

Com pena idiossincrática,
deitei a pena esferográfica.

(Talvez se eu falasse de lagartixas...)



CULPA



Meus passeios
poluem o mundo.

Para ler,
gasto a luz de cidades inundadas.

A geladeira
esburaca a camada de ozônio.

Banhos longos
desertificam o planeta.

Para comer, beber, viver
gasto dinheiro (que nem ganhei).

Meus poemas
derrubam árvores.



DISTANTE


Para Andréa


Onde a linha amarela
cruza o entardecer
meus sonhos dormem
escondidos
em você.



CÚMULO-NIMBO



Seu dentro
é nublado.

Embaço
embaixo
de embaço.

Em seus olhos,
persianas e pestanas
persistem em fechar.

Mas um vento vem,
vagaroso...
Move leve o sonho.

Mostra as cores
sob o cinza, no seu íntimo,
por um ínfimo
instante.

Queira Deus que chova.



ENIGMA



O que há nas cervejas geladas?
Murmúrias
de sedes esfarrapadas.



COMO?



Me pedem poemas de amor
e, no lixão, o agricultor,
entre moscas e urubus,
alimenta sua família
com restos.

A vida toda plantou e colheu
pros outros.
Agora envelheceu
sem terra.

E ele sabe
como o governo come.

E ele sabe
que de fora comem nosso país.

Ele só não sabe
o que vai comer amanhã.



DOURADAS


Para Anna Gabriela


Nessas raias estreitas,
as douradas
por quem mais nadei
eram horizonte.

Bati o recorde
atlântico
das mil tentativas
(tiros n’água).

Fui tetracampeão
de salto ornamental
no escuro.

Só
subi no pódio de mim mesmo,
sem hino, bandeira ou torcida.





O SER POETA:



Falar da luz
que não se vê.

Mostrar o bem
que não se têm.

Cantar o amor
sem nem querer.

Fazer feliz
e triste ser.





FOGOS



Os fogos de artifício
em Copacabana,

os fogos de míssil
no Oriente Médio

iluminam o passar dos anos.

Evolução?
Engano.





QUE HORAS SÃO



Meg Donas nosso
que estás no shopping,

amarela e brilhante
seja tua luz,

queira deus que haja vacas
entre teus pães,

venha a nós essa gordura
assim no Meg Bacon como no Big Meg,

não nos deixe
cair em dieta

e livra-nos
da batata murcha.




LÍNGUA



Pela porta da poesia
entrei pra dentro de um pleonasmo.

Vivo, vivia
na língua de tanta gente
que achei doentes
os dentes que diziam “tá errado”.




CINZA



O sonho que não realizei
me beija às cinco da manhã.
Só pra me lembrar
que dói sonhar.

A cidade do alto, cinza
sob o céu pesado, cinza.
Carros, ambulâncias, helicópteros, sirenes, trânsito, luzes girando,
[pedestres...
pensam que chegam a algum lugar.

Ninguém abre os olhos
pras flores abertas.
Aposto que assim são mais felizes.




DESAMOR



Enamorados nas românticas gôndolas,
os vejo gônadas.





MODERNIDADE



ritmo
acelerado
de
vida
curta
como
o
poema
burguer





LINHA AMARELA



Vejo
na grandeza das pedras à esquerda
Deus.

Rádio ligado:
nuvem de melancolia
em música lenta.

No túnel, silêncio.
No túnel, escuro.
Há de se acelerar
para o túnel passar.

Passado,
o chão molhado
fez, entre ex-carros, quatro corpos deitados.

Cai por terra o espiritualismo
e instantâneo medo
ascende no gris.

Mas passa logo.
Acelerando divago:
chegar é o que sempre quis.





CRIAÇÃO



A palavra viva
levantou-se da folha morta.

De altura ambígua,
inspirou sua alma.
Se tivesse olhos, os abriria.

Ouviu-se: – Viva!
E então não se sabia
se era ordem, celebração
ou se alguém a lia.





X



Sem mutação,
mutante:
metamorfose
ambulante.

De médico e Logan
todo poeta
tem um tempo.

Infeliz do estagnado,
cromossomo degenerado.

Ri no rio a momentânea sinuosidade de cobra antes do bote.





ASAS



Não procuro a liberdade que passará,
mas a do pássaro ligeiro.
Nem espero a que virá:
o futuro é traiçoeiro.

Sinto as asas invisíveis agora.
Vôo alto, contente.
Se não fosse o vento de outrora
me contentaria com o chão quente.
Não deixarei de ascender na aurora
Pelas aves abaixo, maldizentes.

Pouco importa alcançar.
Quero é ser livre para sonhar
sonhos em qualquer altitude.




TERRA BRASILIS



Desta terra
regada com suor,

coberta de pedras
nos caminhos,

cansada de guerras
(invisíveis?),

cercada pelos grandes
(invencíveis?),

nascem os dons
que perfumam o mundo.



VI UM SATÉLITE



Hoje foi quente.
Jantei galinha
e dispensei a TV.

Deitei sob as estrelas,
ouvi o vento balançando as plantas
e o casal de vizinhos brigando.

Fui feliz assim,
com muitos verbos,
poucas conjunções
e nenhuma metáfora.



FIM DE MILÊNIO



Caminhava na floresta molhada
e pisei no gnomo, caí na fada.

Desesperado,
tentei falar com meu anjo da guarda.
Linha ocupada!

Minha lua em aquário
sempre me fez de otário.



INDECISÃO



Sou
a porta entreaberta.
(lua estilizada)

Nem aberta
nem fechada.

Se a mais leve brisa
me define,
é temporário:

Minha chave
não existe.



QUE ANDRA DOR FEZ ANDRADE?



A dor dos dardos da idade
rolou os dados, vergou Andrade.
Resultado: andar.

Andar até o fim do dia,
pois vem a tarde.

Vem a tarde, Andrade,
com sua antropofagia.

Ande como subindo os Andes,
como fugindo do antes,
antes que te coma o fim.

(Andando por minha rua, Andrade se ergueu do derrame.)





A MORTE DA PERNA-DE-PAU



Sinara me ensinara
a sina de Nara,
em cima de varas,
acima de caras.

Felicidade o dia inteiro,
simplicidade no passo ligeiro,
velocidade em fazer dinheiro,
longevidade até o bueiro.




O NADA


Para Manuel Bandeira


Aprendo a fingir aprender
com professores atrasados fingindo ensinar.
Anoto todas as regras
menos a filosofia das janelas.

Requeiro petições e memorandos
demorando em diretorias
vazias de humanos,
cheias de burocracia.

Todas as pessoas perto, distantes.
Todas as pessoas distantes, perto.

Meu todo dia
só se salva pelo não fazer,
único prazer: poesia.






TUDO PELOS ARES



Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.





ESTRELA DISTANTE



Estou solstício
no espaço cósmico.

Não que minha vida seja
especial.

É que no ócio
construo veleiros espaciais
para ir, só.




HERANÇA


Para meu pai


Comecei a ler
pelos olhos de meu pai.

Os contos de fada
espantavam monstros no escuro.

Mas eu gostava tanto
que acabava o livro e eu não dormia.

Ele então partia,
deixando a luz acesa.

Cresci.
Aprendi a ler (e a ser) só.

Mas herdei até o problema
com as palavras:

As que faltam, nos seus silêncios de retrato
e as que sobram, espinhentas, e destroem palácios.

Construídos demoradamente, silenciosamente, arduamente
com atos de amor.

Levei duas dúzias de anos
para ver que as palavras com espinhos
não diziam o que nós realmente sentíamos.

Queria ter herdado
o dom de sentir prazer com as coisas simples,

como deixar a luz acesa
para aqueles que amo.





UTILIDADE



Me falam para produzir,
como se alguém produzisse...

Quem produz terra fértil
é a minhoca.

Quem limpa a água
é a terra fértil.

Quem joga oxigênio no ar?
Algas cianofíceas.

E nós, humanos,
o que produzimos
usando a terra,
acabando com a água,
sujando o ar
e adorando a moeda?

– Eu quero é produzir pedras.




A CECÍLIA MEIRELES



Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.

Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.

Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:

A poesia da rosa
é seu espinho.





ISSEDÔNIA



Antônia, eu vou pra Issedônia
sentir a brisa de Pasárgada,
vou ver as ondas do mar Jônio
sem descobrir como voltar.

Soube que lá tudo é belo,
não há favela nem castelo,
mas se não for o que espero
eu vou continuar por lá.

Dizem que lá tudo é na cama,
sem placas “Não pise na grama”,
mas se não for assim bacana
eu vou continuar por lá.

Ouvi que lá não há trabalho,
só sexo, siesta e baralho,
mas se for tudo ao contrário
eu vou continuar por lá.




CHEGADA



A chuva a luz a Lia acabou

Há quanto?
Voltarão?

Eu espero

No escuro de meu desespero
a esperança é chama oscilante

O portão, de ferro melancólico, chora sonoro
O jardim se arrasta ruidosamente em algo

Já posso vê-la
de volta

A escada triste derrama exata
água pelos degraus em cascata

A madeira da porta vibra com o ranger
Abre-se, olhos idem

Eu no carpete no silêncio no breu

Apenas vento







EQUILÍBRIO DISTANTE


Para Renato Russo


Na linha fina do horizonte
se equilibra meu equilíbrio distante.

Mas quem um dia chegou lá?
Por que quero (logo eu) chegar?

Faço poemas
com tais temas
dentro do shopping.

Que a perfeição afunde em sua lonjura
e eu ache felicidade em tanajuras.




FOTO DELA


Para Andréa


Via eu contente as fotos:
formatura de um amigo.
Até que chegou a dela,
de branco, rindo de mim.

Foi quando não vi mais nada.

Só senti um calor estranho,
e explodiu em meu silêncio
num velho vulcão distante
a vontade de a ter.








ENGENHARIA ELÉTRICA UFRJ


Para Walton e Vagner


Meus dois amigos
derrotaram números
com garra
de adamantium.

Surfaram em ondas eletromagnéticas
apenas para acabar, muitas vezes,
afogados em teorias.

Mas integraram volumes
em cinco dimensões
sem se entregarem...

Ralaram as mãos nas Físicas (e suas leis),
sujaram a alma nos motores (sem ouvir RPM),
eletrocutaram esperanças nos circuitos (algumas morreram),
perderam um pouco de fé nos fios (efeito Joule?),
sistematicamente comeram o pão que o Basílio amassou
[(maldito seja).

E agora a recompensa,
a vitória, a conquista, o papel derradeiro:
engenheiro.




VOCAÇÃO



Meu avô
queria ser aviador,
piloto mesmo.

Não conseguiu.
Algumas vezes foi visto em sua juventude
olhando o nada com a vista cansada.

No fundo, bem
que quero voar também.
Porém sem avião.

Minha aeronave anemofílica
é a palavra etílica.
E eu nem bebo...

Mas leio sonhos aéreos,
que os ventos ventaram
e ventarão.

E passo a vida
a dar passos
sem pegadas.

















II - Férias







E ATENÇÃO:



Devo comer este bife mal passado
tentando esquecer que vai me engordar,
o colesterol ruim,
a vaca louca,
os triglicerídeos,
a vaca louca,
que pode ter cisticercos,
a vaca louca,
o coliforme 157,
ou ainda,
a vaca louca.

Devo mastigar esta alface sem pensar nas planárias,
beber esta água sem sentir o vibrião colérico na garganta.

Devo ignorar este mosquito que me morde – com listrinhas na
[bunda,
possível portador da dengue tipo 3,
que pode ser mais grave para quem já teve a 2 ou a 1.

Devo inspirar sem sentir o gás carbônico,
piorando o efeito estufa.

Devo parar de suar, no ar condicionado,
sem a culpa de destruir a camada de ozônio.

Devo passar estes dias a esperar o telefone tocar
tentando me convencer de que estou bem,
que estou de férias
e que não estou esperando você ligar.


Apesar de estar em casa,
ajudando a destruir o mundo,
esperando o telefonema sagrado
e absorvendo informações demais.






JANEIRO



O dourado vence o vermelho
no dia nascente.
A revanche: o crepúsculo.

Verão.
Estação de sonhos e ócio.
Já cheira a saudade
antes de esquentar.

Provo as bênçãos
dos bons arcanjos
em trajes de banho
sobre a areia branca

e a irregularidade
dos horizontes
das cidades
do interior
da alma.






PARA MANOEL DE BARROS



Seu Nhonhô
morava no silêncio
e tinha cabelos de nuvens.

Era irmanado das águas paradas
e de quando em vez libélulas
punham ovos em sua cabeça.

Sua voz tinha falha de crostas
e vulcões invisíveis expeliam o nada por suas ventas.

Da última vez que o vi
estava árvore.

Quando foi cortado,
se cercou de cinza
e desandou a falar
sem dizer.






VIAGEM



A casa era uma estranha
na chegada.

Após o primeiro banho,
o primeiro silêncio
e o primeiro poema
nos tornamos cúmplices.

Aposto que em uma semana
serei um pouco casa.

E, na despedida,
meio que vou ficar
e meia casa vai viajar.

Ponta Negra – 1º/2/2001





CANTO NA PRAIA



Andorinhas
em bando,

namorados
na praça,

os amigos
falando,

os cachorros:
desgraça.

Tantas ondas,
tantos plurais
e a cigarra,
no singular,
canta.

(no plural morreria)

Ponta Negra – 1º/2/2001





PERENE


Para Camões


O mar:
constante fúria espumante.

Desfaz penhas
(teimosas e duras)
em areia molhada.

Piso tatuís,
gaivotas cortam o ar
e sinto na palavra escrita
a perenidade do mar.

Ponta Negra - 2/2/2001






A FOTO


Para Mariana


O mar fala.
O mar repete.
Tento sentir o que.

Talvez seja
para não pensar.

Uma menina pergunta:
– Senhor, que horas são?
Falo dois números e me pergunto
quando virei senhor.

Talvez por isso
esteja de relógio na praia
e não entenda a graça
das cambalhotas infantis na água.

De tanto
olhar sentir ouvir
enormes ondas,
entendo a grandiosidade do momento.

Uma família fotografa o crepúsculo.
O mar diz que não caberá na foto.

Ponta Negra - 2/2/2001









MONTES



Os urubus não estão baixos,
nós é que estamos altos.

Trepados na terra vermelha,
motorizados por entre matos,
procurando poesia nas alturas.

Mas alturas há aos montes...

E poesia não é paisagem.

É o bicho que entra pelo vidro do carro
e assusta,
é a vertigem na beira do despenhadeiro,
é a cobra imaginária dos caminhos,
é o não chegar.

Ponta Negra - 2/2/2001










PICOLÉ DE MANGA



É verão
Como picolé de manga

A praia arde
Como picolé de manga

A água dourada no entardecer
Como picolé de manga

(um pessimista dirá
que vou engordar)

Ponta Negra - 2/2/2001








POSSIBILIDADES



Ler é aumentar as chances
de que minha seta
acerte a palavra,
a certa.

Ponta Negra - 6/2/2001










BÚZIOS OU NADA



A rua que dá no ócio
é de pedras irregulares.

Na chegada posso
sentir o cheiro dos mares.

Mas fazer o nada
é difícil empreitada.

E as revoluções industriais,
a cada onda, cada vez mais
complicam sua produção.

Habituados a correr demais,
desaprendemos a andar na contramão.

(Pegar sol é pegar sol, não é nada.
Dormir é dormir, não é nada.
Nadar é nadar, não é nada.)

Para reaprender
preciso escrever.
(A família dorme: não temos TV.)

Búzios - 11/2/2001







QUADRO SUPERIOR ESQUERDO



.

Ah,
a vela,
a chama.

A vela-chama.

A vela chama ao mar
em belos tons de vermelho.

O homem é muito pequeno, é nada
perto da vela cheia de ar e esplendor.

Mas parece maior, pensando brilhar no leme.

Búzios - 11/2/2001






O TORTO



Há um peixe torto
pintado num prato
pendurado numa
parede bem reta.

Ainda bem.

Búzios - 11/2/2001






LONGE



Disseram que a praia era perto...
mas longe mesmo é a noite
que não cai sem uma TV ligada.

Búzios - 11/2/2001







O FANTASMA



Hoje o fantasma de Seu Nhonhô
passou por mim.
Mas ventava tão alto que não o vi.
Assim sendo, não pude lhe escrever meus silêncios
nem recordar tudo que não fiz.

Búzios - 11/2/2001







SÍNDROME DA CHEGADA



As casas de praia, montanha ou nada
são sempre decepção na chegada.

Se fôssemos para Pasárgada,
no primeiro dia me perguntaria:
– Por que não fiquei em casa?

Búzios - 11/2/2001










PELA ESTRADA AFORA



Olho pro papel
e lembro que deixei cair
versos não escritos
pela estrada toda.

Nunca mais vou achá-los.
Mas quem sabe
alguém que passe...

Agora,
aqui,
instalado,
confortável,
caneta destampada,
folha em branco...

E esses casais de namorados
namorando, namorando, namorando
nada me dizem.

Búzios - 11/2/2001










VENTO FORTE


Para Mario Quintana


O vento aqui não pára.

Nem um segundo,
nem um pouquinho.

Ah, se eu fosse moinho...

Búzios - 11/2/2001









SEVEN



Fiz sete poemas em meia hora
mas a TV continua sem pegar nada.

Agora
vou beber água.

Búzios - 11/2/2001









KAFKA



Todo caminho leva
à rua das pedras,
onde a beleza ganha.

Queria mais olhos e pernas
pra ver as belas e desviar das pedras.
Resumindo – virar aranha.

Búzios - 12/2/2001










NOITE NA RUA DAS PEDRAS



Maria farinha
de lado caminha
devagar, calminha.

O barco balança
devagar, não cansa.

E eu rimo mal.

Búzios - 12/2/2001









FÉRIAS



O céu tem mais estrelas
o silêncio, mais grilos
as horas, mais tempo
os amores impossíveis, mais brilho.

Búzios - 12/2/2001








ALVO



O sol a pele doura.
Mas só dura até a dureza
que é o cotidiano da vida fordista.

E tudo embranquece.

Búzios - 12/2/2001








FAMÍLIA

Para meus pais e minha irmã

Regularmente,
algum bicho
morde mamãe.

E ela irrompe pelos cômodos
como trotando um jegue de tamancos
dando rodopios de voz
e distribuindo culpas.

Meu pai canta ou assobia.

Minha irmã pergunta.

Depois de uns duodécimos temporais
tudo é calma.

As famílias são fascinantes.

Búzios - 13/2/2001








PLACA



Procura-se alguém
que ame com certeza.

Interessados
entrar em contato
para breve discussão filosófica
pelo telefone vermelho.

Búzios - 13/2/2001








SOPRO



Não sei o que me deu hoje
que não durmo e faço poemas.

Talvez a noite esteja insone
e me sopre versos pelo escuro.

Búzios - 13/2/2001






ORGANIZAÇÃO CEREBRAL


Para Walter Cabral de Moura


Decepção amorosa?
Por favor pegue este número,
entre na fila a sua direita
e aguarde ser chamada pelo alto-falante
para um poema.

Búzios - 13/2/2001










DAS NEGATIVAS



E novamente não durmo
por algo que não é
e talvez nunca seja.

(Decepção amorosa número 32, dirija-se ao balcão azul.)

Búzios - 13/2/2001








INÍCIO DE UM ROMANCE POLICIAL



Eram sete e meia.
A polícia tentava isolar o local.
Mostrei a carteira de poeta e passei.
O crepúsculo, morto, vertia sangue pelo céu.

Búzios - 13/2/2001









3 A.M.



Nem sinal de sono.

A pele coça (queimada),
ouço (no silêncio) a maldição do Tchan,
escrevo sem parar (quase três da manhã).

O universo conspira insônias lá fora.

Búzios - 13/2/2001










DESTINO



A cigana leu minha mão
e não viu que escrevia poemas.

Pediu vinte, dei dez.

Búzios - 13/2/2001









DELÍRIO


Para o hipopótamo de Brás Cubas


Há um ar de ave
na algibeira das costelas de porco
que como como se fossem
voar.

Búzios - 13/2/2001









SAÍDA DE BÚZIOS



Parou o vento.

O silêncio ensinava o orvalho
a pingar da relva...

Foi quando a TV funcionou e partimos.

Cheios de melanina
e lembranças argentinas.







CORTE



Tenho sorte.
Ao menos tento forte
(mesmo que não acerte)
fazer do ócio, arte.

O tempo curto – corte.

Sem vida – morte.




(Fabio Rocha)